Crítica Hereditário: Como o Trauma Familiar se Transforma em Terror - O Mundo Autista
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Crítica Hereditário: Como o Trauma Familiar se Transforma em Terror

Crítica de Hereditário, de Ari Aster. O filme usa o "horror elevado" para transformar o luto e o trauma familiar em puro terror.

Crítica de Hereditário, de Ari Aster. O filme usa o "horror elevado" para transformar o luto e o trauma familiar em puro terror.

Não é segredo para ninguém que me conhece que eu adoro filmes de terror. Esta é uma apreciação que acontece tanto pelo meu apreço pela ludicidade do gênero quanto pelo seu potencial metafórico. O estilo permite discutir temas sérios de um modo divertido e criativo, mexer com as emoções do público e suscitar debates interessantes sobre os mais diversos assuntos. Porém, confesso que o subgênero que menos me agrada é o da possessão demoníaca. Talvez pela minha formação budista, e não cristã, eu não tenha o mesmo referencial que a maioria das pessoas para embarcar em tramas assim, ou associá-las com a vida cotidiana. Por causa desse meu repertório, me surpreendi muito positivamente com Hereditário, o filme que transformou Ari Aster em um realizador notável do chamado “horror elevado”. Este é um rótulo usado para filmes de terror que combinam medo e elementos sobrenaturais com temas psicológicos, sociais ou existenciais mais densos, como luto, trauma, maternidade, culpa, identidade e relações familiares. Em geral, esses filmes também valorizam mais a atmosfera, a ambiguidade e a construção estética do que os sustos fáceis ou a violência gratuita.

A Dinâmica da Família Graham e o Peso do Luto em Hereditário

​A história acompanha a família Graham após a morte de Ellen, mãe de Annie, uma artista plástica especializada na criação de miniaturas. Annie vive com o marido, Steve, e os dois filhos, Peter e Charlie, em uma casa afastada. Esta residência, aliás, parece se tornar aos poucos tão opressiva quanto as relações entre eles. É que, desde o início, Ari Aster evidencia que aquela não é uma família harmoniosa. Assim, o luto torna mais visível as tensões que já existiam. Annie mantém uma relação ambivalente com a mãe recém-falecida e tenta organizar sentimentos contraditórios enquanto trabalha em pequenas reproduções de situações familiares, como se precisasse transformar a própria vida em objeto para conseguir observá-la de fora. Steve, por sua vez, tenta assumir a posição do integrante racional e estabilizador da casa, mas sua postura frequentemente esbarra na intensidade emocional da esposa. Peter é um adolescente que parece desejar sobretudo uma vida comum, distante dos conflitos familiares. Enquanto isso, Charlie, a filha mais nova, apresenta uma personalidade peculiar e introspectiva. Assim, ela apresenta hábitos como produzir pequenos objetos com materiais encontrados e emitir repetidamente um estalo com a língua.

Distância Emocional e a Metáfora das Miniatura

​É justamente nas relações entre essas quatro pessoas que Hereditário encontra grande parte de sua força. Afinal, quase ninguém consegue efetivamente alcançar o outro. Annie ama os filhos, mas esse amor nunca é apresentado de maneira idealizada. Isso porque ele convive com frustrações, ressentimentos e palavras que talvez não possam ser retiradas depois de pronunciadas. Peter, por sua vez, parece alternar a necessidade de acolhimento e o desejo de se afastar da mãe. Já Steve tenta preservar alguma normalidade mesmo quando percebe que não possui instrumentos para reparar aquilo que está se rompendo. Aster traduz essas distâncias emocionais em situações muito concretas. Exemplos são conversas interrompidas, silêncios prolongados, olhares atravessados e refeições em que pessoas sentadas a poucos centímetros umas das outras parecem incapazes de realmente se comunicar. Até mesmo as miniaturas produzidas por Annie funcionam como uma imagem particularmente sugestiva dessa dinâmica. Afinal, os integrantes da família habitam a mesma casa como pequenas figuras dentro de um cenário. Dessa forma, eles podem estar próximos fisicamente, mas encontram-se frequentemente aprisionados em experiências emocionais que os demais não conseguem alcançar.

O Verdadeiro Demônio: Herança, Culpa e Ressentimento

Hereditário é um grande filme porque Aster percebe que, ainda mais eficaz do que mexer com as emoções da plateia para despertar o medo, é direcionar o terror para aquilo que as pessoas sentem e que as incomoda, mas que muitas vezes não é elaborado nem nomeado. O filme se constrói em uma fronteira incerta entre o amor e o ressentimento. Dessa forma, a abordagem de temas como luto, culpa e relações familiares ganha um novo patamar de densidade. E a experiência de ver a obra produz sufocamento, desconforto e impotência. Este é o mote para o diretor investigar o que acontece quando o luto, em vez de aproximar uma família, revela tudo aquilo que seus integrantes já não suportavam uns nos outros. Assim, o demônio de Hereditário pode até ser literal, mas sua força depende de uma família que já havia aprendido a se assombrar uns aos outros. Outro aspecto perturbador em toda essa construção é a ideia de que não herdamos apenas características físicas de uma família: herdamos histórias que começaram antes de nós e cujas consequências, muitas vezes, temos que aprender a conviver.

Avaliação de Hereditário: 8/10

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023)

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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