Com direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias, Herança de Narcisa acompanha Ana (Paolla Oliveira). Ela é uma chef de cozinha que retorna ao casarão onde passou a infância após a morte da mãe. Narcisa, aliás, era uma antiga vedete de personalidade vaidosa, instável e dominadora. Ao lado do irmão, Ana precisa organizar os pertences da matriarca e preparar a casa para a venda. Contudo, a tarefa prática logo se transforma em um confronto com lembranças, ressentimentos e segredos familiares. Quando permanece sozinha no imóvel, fenômenos inquietantes começam a aproximar o sobrenatural de um trauma há muito reprimido.
Trauma, Luto e a Complexa Relação Entre Mãe e Filha
A casa, então, passa a funcionar como uma extensão da própria mente da protagonista. Isso ocorre em função dos cômodos fechados, objetos antigos, fotografias, figurinos e, sobretudo, o camarim de Narcisa que atuam como arquivos emocionais. Nesse sentido, o filme se constrói como uma narrativa sobre luto, memória e relações entre mães e filhas. Nessa construção, o maior assombro está menos naquilo que Ana nunca conseguiu elaborar plenamente sobre o convívio com a mãe.
Terror Psicológico, Herança de Narcisa Subverte o Clichê da Casa Assombrada
Essa contenção e negação moldam profundamente a protagonista. Ana tenta lidar com o passado de maneira puramente objetiva. Ela age como se fosse possível organizar décadas de conflito em caixas e simplesmente descartá-las. No entanto, o longa revela gradativamente que a herança de Narcisa ultrapassa a dimensão material. Ana teme reconhecer em si traços da mulher de quem sempre tentou se afastar. Os espelhos e reflexos reforçam essa ideia de duplicidade. É como se ela estivesse constantemente tentando descobrir onde a identidade da mãe termina e a sua começa.
Seu luto é igualmente ambivalente. Afinal, ela perdeu alguém por quem sentia, ao mesmo tempo, amor, raiva, mágoa, fascínio e necessidade de distância. O núcleo dramático da personagem encontra-se justamente nessa tensão entre rejeitar Narcisa e aceitar que parte dela continuará inscrita em sua própria história. E a narrativa compreende que romper com uma herança familiar não significa, necessariamente, apagá-la.
O Retorno ao Casarão e os Fantasmas do Passado
Dessa forma, a obra firma-se como um terror psicológico e reflexivo. Isso porque utiliza o sobrenatural como metáfora para explorar o luto, os traumas, as emoções reprimidas e a ancestralidade feminina. A direção apropria-se da roupagem e dos clichês de um clássico suspense de “casa mal-assombrada” para, em seguida, subvertê-los com uma narrativa surpreendente e emocionante sobre como os laços são capazes de perdurar através do tempo e das gerações.
A Força de Paolla Oliveira no Centro da Trama
O ritmo, que se inicia de forma mais lenta e contida, vai pouco a pouco envolvendo o espectador nessa construção atmosférica. Nela, destaca-se a força narrativa dos objetos que compõem o cenário: discos, fotografias, roupas e, principalmente, um laço de fita vermelha ditam o tom de nostalgia melancólica da produção. No centro de tudo, Paolla Oliveira acompanha o crescimento do filme e sustenta com firmeza o pilar da trama, Ela confere humanidade e peso a uma personagem que poderia facilmente se tornar antipática devido à forte resignação inicial.
Avaliação de Herança de Narcisa: 7/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI”, repórter da “Revista Autismo“ e apresentadora do podcast “Boas de Conversa”. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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