“Hamnet – A vida antes de Hamlet”, o mais novo drama escrito e dirigido pela premiada cineasta Chloé Zhao, reafirma a sensibilidade única de uma diretora que sabe explorar as nuances das experiências humanas. O longa-metragem, afinal, foge das armadilhas e convenções das cinebiografias tradicionais. Em vez disso, a obra mergulha na dor de um casal de figuras históricas para entregar uma obra transcendental sobre o poder da arte diante da morte.
A Perspectiva de Agnes: Entenda Por Que o Filme Hamnet é uma Reflexão Arrebatadora Sobre a Arte e a Dor
Para traduzir esses afetos, Zhao escolhe um caminho íntimo e original. Isso porque o filme é contado pela perspectiva da esposa de William Shakespeare, Anne Hathaway, aqui referenciada como Agnes, conforme sugerem registros históricos.
Interpretada de forma magistral por Jessie Buckley, Agnes é o coração da trama. Por meio dela, testemunhamos uma conexão profunda com a natureza e o místico. Esses elementos elevam a produção a um nível quase espiritual. Além disso, a reconstrução de época, somada a uma direção de arte primorosa e fotografia impecável, cria o cenário perfeito para uma reflexão sobre a finitude.
Hamnet: Como Chloé Zhao, Jessie Buckley e Paul Mescal Transformam o Luto de Shakespeare em Obra-Prima
No papel de Shakespeare, Paul Mescal entrega uma performance equilibrada, marcada por momentos de excentricidade e um talento contido. O grande trunfo do roteiro é como ele utiliza a ausência do personagem como ferramenta narrativa. Enquanto Agnes lida com o cotidiano da dor, Shakespeare parece distante, imerso em seu trabalho. No entanto, o clímax do filme revela a reflexão arrebatadora de que a arte não é uma fuga do luto, mas uma forma distinta de processá-lo. Assim, o “não dito” — aquilo que as palavras comuns não conseguem expressar — ganha forma através da criação artística.
Com isso, o filme nos ensina que o luto pela perda de um filho não precisa ser o fim da esperança. Em vez de sucumbir ao rancor ou ao desespero, a obra de Zhao mostra como a dor pode ser transmutada em algo eterno. “Hamnet”, dessa forma, revela-se um tributo à capacidade humana de usar a metáfora para imortalizar aqueles que amamos. É um entretenimento que toca a alma e nos convida a sentir e refletir sobre a sociedade e a nossa própria jornada emocional. Uma obra linda, necessária e profundamente humana.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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