Agente 86 surpreende principalmente pelo respeito que demonstra pelo material que lhe deu origem. Em vez de transformar uma série marcada pelo absurdo e pela ingenuidade em apenas mais uma comédia de ação acelerada, o filme de 2008 procura preservar justamente aquilo que tornava a produção televisiva de 1965 tão particular. Isso se refere ao humor nonsense, o pastelão, a incompetência tratada com absoluta seriedade e a transformação do universo da espionagem em terreno fértil para o ridículo.
De 1965 às Telonas: A Essência do Humor Nonsense
A série original, criada por Mel Brooks e Buck Henry, nasceu em plena Guerra Fria e funcionava como uma paródia deliciosamente absurda das histórias de espionagem popularizadas por personagens como James Bond. Em vez do espião sofisticado, impecável e irresistível, surgia Maxwell Smart. Interpretado por Don Adams, tratava-se de um agente capaz de acreditar sinceramente na própria competência enquanto acumulava equívocos, acidentes e decisões desastrosas.
Parte considerável da graça vinha justamente desse contraste entre a gravidade do universo da espionagem e a absoluta falta de solenidade com que a série o tratava. O longa-metragem dirigido por Peter Segal compreende essa dinâmica. Há explosões, perseguições, aviões, armas e uma produção muito mais grandiosa do que qualquer coisa que a televisão dos anos 1960 poderia oferecer. Porém, o espetáculo raramente se torna mais importante do que a piada. Isso porque Agente 86 aceita a natureza essencialmente boba de seu universo.
A Trama de Agente 86: A Parceria com a Agente 99
Na história, um ataque à sede da CONTROLE provoca uma crise entre os agentes da organização e finalmente oferece a Maxwell Smart (Steve Carell) a oportunidade que ele esperava. Até então trabalhando principalmente como analista, Smart é promovido a agente de campo e recebe o cobiçado código 86. Ao lado da experiente Agente 99 (Anne Hathaway), ele precisa localizar integrantes da KAOS e impedir um plano que coloca inúmeras vidas em risco.
A premissa preserva a lógica fundamental da série: situações potencialmente catastróficas são enfrentadas por personagens que frequentemente parecem participar de uma comédia completamente diferente daquela sugerida pela ameaça ao redor deles. É esse descompasso que alimenta grande parte do humor. O mundo pode estar à beira de uma tragédia internacional, mas Maxwell ainda encontra tempo para se atrapalhar com uma porta, interpretar equivocadamente uma situação ou transformar uma operação delicada em uma sequência de constrangimentos.
Sátira e Geopolítica: A Releitura da Guerra Fria
O seriado esteve no ar entre 1965 e 1970, em um período profundamente marcado pela Guerra Fria e pelo medo de uma escalada militar entre as grandes potências. Brooks e Henry respondiam a esse ambiente transformando a lógica da espionagem e do confronto geopolítico em farsa. A KAOS e a CONTROLE funcionavam como versões exageradas de uma divisão de mundo entre inimigos aparentemente absolutos. Ao converter ameaças bélicas em pastelão, a série revelava justamente a irracionalidade de um conflito capaz de colocar a própria sobrevivência humana em risco.
O filme de 2008 inevitavelmente parte de outro contexto, mas mantém essa estrutura de organizações secretas, ameaças internacionais e vilões caricaturais. Ele não tenta reconstruir a Guerra Fria nem transformar a antiga sátira em comentário político especialmente complexo. Prefere conservar seu mecanismo cômico. Assim, diante de personagens que tratam planos absurdos com enorme seriedade, a grandiosidade da espionagem começa a parecer ridícula. O diretor Peter Segal conduz tudo isso com ritmo suficientemente ágil para que o espectador raramente permaneça muito tempo diante de uma piada que não funciona. A estratégia parece ser simples: lançar tantas situações cômicas quanto possível e confiar que uma nova gag chegará rapidamente caso a anterior fracasse. Há humor físico, diálogos absurdos, constrangimentos, paródias do cinema de espionagem e pequenas brincadeiras visuais.
O Maxwell Smart de Steve Carell
Steve Carell encontra uma versão própria de Maxwell Smart. Seu personagem não é simplesmente um idiota. Pelo contrário: ele possui conhecimento, dedicação e até habilidades inesperadas. O problema é que sua confiança frequentemente ultrapassa sua capacidade de compreender aquilo que está acontecendo ao redor. Carell sabe explorar muito bem esse tipo de personagem, homens convencidos de que dominam uma situação exatamente no momento em que o espectador percebe que perderam completamente o controle dela.
Essa escolha também torna Maxwell mais simpático. Há uma ingenuidade genuína no personagem, algo fundamental para que suas trapalhadas não se tornem irritantes. Ele quer ser um bom agente e, em muitos momentos, demonstra competência real. O humor nasce menos de uma suposta estupidez absoluta e mais da diferença entre quem Maxwell acredita ser e aquilo que as circunstâncias revelam.
O Equilíbrio da Agente 99
Anne Hathaway também funciona muito bem como a Agente 99. Se Maxwell representa o entusiasmo quase infantil diante da oportunidade de finalmente tornar-se um espião de campo, 99 ocupa inicialmente o outro extremo: experiente, habilidosa e muito mais consciente dos riscos da missão.
A dinâmica entre os dois recupera um elemento importante da série original sem transformar a personagem feminina apenas em acompanhante do herói. Hathaway consegue participar das cenas de ação, sustentar o humor e ainda construir gradualmente uma química romântica com Carell. Essa relação é especialmente eficiente porque o filme não depende exclusivamente do romance. A aproximação entre os dois nasce das missões, dos atritos e da convivência, enquanto a comédia continua sendo o motor da narrativa.
Avaliação: 8/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI”, repórter da “Revista Autismo“ e apresentadora do podcast “Boas de Conversa” no canal do YouTube “Selma & Sophia“.. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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