Os primeiros minutos de A Noiva! não são, francamente, aquilo que se chamaria de um chamariz irresistível. Em uma reverência quase solene à base de A Noiva de Frankenstein, o longa tem início com ninguém menos que Mary Shelley. E quem a interpreta? A sempre estupenda Jessie Buckley – que, diga-se de passagem, está a um milímetro de arrebatar o Oscar neste domingo por aquele seu trabalho formidável com a Chloé Zhao em Hamnet. Aqui, como a mãe fundadora do gótico, do terror e da ficção científica, ela nos confessa, com um olhar febril, ter escrito algo ainda mais lúgubre e perturbador do que a sua obra máxima.
Maggie Gyllenhaal: De Elena Ferrante ao Terror Gótico de “A Noiva!”
Esse prólogo, que tem uma teatralidade propositalmente incômoda, logo dá lugar à gênese – ou seria possessão? – da personagem-título, também vivida pela Buckley. É tudo muito rápido. Antes mesmo que se consiga situar quem é quem, lá está o monstro de Frankenstein, um Christian Bale em frangalhos, no encalço de uma médica célebre – a Annette Bening, vejam só – em busca da fabricação de uma companheira romântica. É um caos? É. E, embora a poeira assente e o filme se revele menos desgovernado do que essa largada sugere, o espectador pode, sim, suar um bocado para embarcar de vez na proposta.
Este é apenas o segundo trabalho na direção da atriz Maggie Gyllenhaal. O que é fascinante, porque o salto do realismo cortante de A Filha Perdida – aquela adaptação primorosa da Elena Ferrante – para esta loucura gótica é colossal. Lá, a Maggie dissecava a experiência feminina de uma maneira crua, destemida e sem um pingo de romantismo, expondo as amarras da maternidade e do casamento. Aqui, a roupagem muda radicalmente, é verdade, mas o cerne… ah, o cerne é mesmíssimo.
“A Noiva!”: Uma Narrativa Irregular, Mas Sensorial
Acontece que, por mais que essas obras dialoguem na vontade de discutir mulheres que desafiam o status quo, A Noiva! é, para usar uma palavra gentil, irregular. Acompanhamos essa criatura cuja única razão de existir seria servir de enfeite e companhia para um monstro. A ideia de dar agência e voz a essa mulher, que no clássico de 1935 era tão subaproveitada, é excelente no papel. Mas, na prática, a execução claudica. Subtramas que deveriam ancorar a história – como o mafioso caricato e as motivações da própria doutora responsável por essa ressurreição – são simplesmente engolidas pela balbúrdia da produção e parecem esquecidas pelo roteiro. Até o despertar dessa noiva para a sua própria identidade, que deveria ser o coração pulsante da trama, ganha um tratamento menos catártico do que o material exigia.
No entanto, se na narrativa a Maggie tropeça, na atmosfera ela acerta em cheio. Sendo infinitamente mais sensorial do que analítico, A Noiva! não tenta higienizar a violência que retrata. Essa escolha gera um clima de tensão constante, extravagante e banhado por uma sensualidade francamente provocadora. Gyllenhaal concebeu um universo maximalista que é um desbunde para os olhos: do cabelo frisado ao icônico vestido laranja da Noiva – uma cortesia da sempre genial figurinista Sandy Powell –, tudo é apoiado por uma estética visual que flerta deliciosamente com o noir e com o cinismo de Sin City.
E, como a cereja desse bolo caótico, ainda temos uma participação divertidíssima de Jake Gyllenhaal, irmão da diretora, fazendo dupla com Julianne Hough. Eles interpretam astros de cinema em uma homenagem belíssima e pontual à sétima arte. É um filme imperfeito e acidentado? Sem dúvida. Mas, inegavelmente, tem uma pulsação que fascina.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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