Os primeiros minutos de “A Noiva!” não são exatamente chamativos. Em uma reverência ao material-base de A Noiva de Frankenstein, o longa começa com ninguém menos que Mary Shelley. Ela é a icônica escritora que idealizou o monstro responsável por moldar a fantasia, o terror e o gótico. E aqui, é viivida por Jessie Buckley, que está a um passo de receber o Oscar neste domingo por sua emocionante atuação em Hamnet, de Chloé Zhao. Nesta introdução, a autora revela ter escrito algo ainda mais sombrio e perturbador do que sua obra máxima.
Maggie Gyllenhaal: De Elena Ferrante ao Terror Gótico de “A Noiva!”
Esse prólogo, propositalmente incômodo e teatral, rapidamente dá lugar à igualmente desconfortável “possessão” da personagem-título, também interpretada por Buckley. Antes mesmo que possamos assimilar tudo, deparamo-nos com o Frankenstein de Christian Bale atrás de uma famosa médica (papel de Annette Bening), em busca da criação de uma companhia romântica. Todo esse caos, contudo, ganha um pouco mais de contorno à medida que a narrativa avança, mostrando que “A Noiva!” é menos bagunçado do que sua introdução sugere. Ainda assim, o espectador pode encontrar certa dificuldade para embarcar de vez na proposta.
Este é o segundo longa-metragem dirigido pela atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal, que já havia sido aclamada por um trabalho bem diferente e de tom muito mais realista: a adaptação de A Filha Perdida, de Elena Ferrante. Naquela obra, Gyllenhaal retratou a experiência feminina com firmeza, revelando nuances menos glamorosas ao abordar, de forma destemida e sem romantismo, a maternidade, o casamento e a complexidade das relações entre mulheres.
“A Noiva!”: Uma Narrativa Irregular, Mas Sensorial
Apesar dessa versatilidade nos gêneros, ambas as obras guardam fortes similaridades temáticas, especialmente na inclinação para discutir vivências de mulheres que desafiam o status quo. “A Noiva!” acompanha uma personagem cujo único motivo inicial de existência é servir de companhia para um monstro. Contudo, por mais que haja um mérito indiscutível na ideia de conferir presença e voz a uma figura cuja participação era bem mais limitada no clássico de 1935, a versão de 2026 acaba se revelando irregular. Subtramas que deveriam ter peso — como a do vilanesco chefe da máfia e a da doutora responsável pela ressurreição da Noiva — perdem-se no tom caótico da produção, chegando a parecer esquecidas em determinados momentos. Além disso, o próprio arco de amadurecimento de alguém criada para ser um mero complemento, mas que desperta para a própria identidade, recebe uma abordagem menos impactante do que o potencial exigia.
Sendo mais sensorial do que analítico, “A Noiva!” não tenta amenizar a violência que retrata. Essa escolha gera uma atmosfera constantemente tensa, extravagante e de uma sensualidade provocante. Gyllenhaal concebeu um universo maximalista que salta aos olhos: do icônico vestido laranja da Noiva (obra da genial figurinista Sandy Powell) ao seu cabelo frisado, apoiado por uma estética visual que flerta deliciosamente com o noir e com o estilo de Sin City. Como cereja do bolo, um ponto interessante é a participação de Jake Gyllenhaal, irmão da cineasta, ao lado de Julianne Hough, interpretando estrelas de cinema em uma bela homenagem à sétima arte.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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