Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher e a Inversão do True Crime no Suspense de Raphael Montes - O Mundo Autista
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Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher e a Inversão do True Crime no Suspense de Raphael Montes

Crítica de Elize: Sombras de Uma Mulher. O filme inverte as dinâmicas do true crime em um suspense psicológico instigante de Raphael Montes.

Crítica de Elize: Sombras de Uma Mulher. O filme inverte as dinâmicas do true crime em um suspense psicológico instigante de Raphael Montes.

A literatura e os roteiros de Raphael Montes sempre despertam grande interesse, embora seja compreensível a crítica de parte do público de que, muitas vezes, a lente da violência em suas obras se direciona de modo talvez desproporcional às personagens femininas e ao seu sofrimento. O autor costuma responder a essa observação com o argumento pertinente de que essa exposição visceral é uma forma de abordar a subjugação feminina na sociedade para, com isso, denunciá-la.  Ter essa visão em mente, portanto, é importante para compreender a virada que ocorre em seu trabalho no cinema com *Elize: Sombras de Uma Mulher*. Este é um suspense de *true crime* baseado no caso real que chocou o Brasil.

O caso real de Elize e a tensão psicológica da manipulação

Para contextualizar, o filme resgata o notório caso de Elize. Ela é uma ex-garota de programa que se casa com Marcos, um rico executivo que abandona o casamento anterior para ficar com ela, mas que logo retoma uma vida dupla. A narrativa ganha uma camada extra de tensão psicológica ao explorar a controversa internação psiquiátrica da primeira esposa de Marcos. Enquanto o livro que aborda a história aponta que o internamento se deu por conta de uma depressão gerada pelo divórcio, o longa sugere que a internação foi orquestrada de forma manipuladora pelo marido para descredibilizá-la e passá-la como “louca”. E é justamente ao perceber que Marcos poderia estar armando o mesmo destino para ela que a paranoia se instaura na mente de Elize. Isso agrava a dinâmica de abusos e culmina na escalada tóxica que leva ao trágico assassinato

Elize: Sombras de Uma Mulher e A inversão de papéis no true crime nacional

Neste roteiro co-escrito com Marina Torres, portanto, a narrativa se volta para o outro lado da moeda na obra de Raphael Montes. Com isso, o longa inverte a dinâmica habitual frequentemente vista no gênero. Afinal, a estrutura subverte as convenções ao trazer a mulher para o centro da ação como a assassina. Enquanto isso, o homem assume o papel de vítima do crime. Toda essa inversão aparece em meio a uma relação conjugal profundamente problemática. Trata-se, portanto, de um relacionamento tóxico de ambos os lados.

A psique da assassina e a força do suspense psicológico

O grande acerto do filme reside exatamente na maneira como ele se apropria dos recursos da ficção e do suspense psicológico para construir uma narrativa que foca sobretudo na perspectiva da assassina. Em vez de se limitar aos fatos do processo criminal, a obra faz um mergulho na psique e reconstrói as dores emocionais que pavimentaram o caminho até a tragédia. Com essa abordagem, o longa permite uma maior complexidade aos personagens. Dessa forma, evita recortes unidimensionais. Em especial, destaca-se a construção da protagonista, vivida intensamente por Lorena Comparato, que explora seus traumas, ressentimentos acumulados e reações por vezes passionais. O resultado é uma obra que provoca reflexões muito além do crime em si.

Avaliação: 7/10

Vídeo – “Elize: Sombras de Uma Mulher”

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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