Ele Não Está Tão a Fim de Você entende como transformamos rejeição em esperança - O Mundo Autista
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Ele Não Está Tão a Fim de Você entende como transformamos rejeição em esperança

Todas as histórias do filme Ele Não Está Tão a Fim de Você, que mistura autoajuda e comédia romântica, com um elenco estelar.

Todas as histórias do filme Ele Não Está Tão a Fim de Você, que mistura autoajuda e comédia romântica, com um elenco estelar.

Todas as histórias do filme Ele Não Está Tão a Fim de Você, que mistura autoajuda e comédia romântica, com um elenco estelar.

Ele Não Está Tão a Fim de Você abre com uma sequência que, francamente, fará quase qualquer mulher na plateia se contorcer em um misto de reconhecimento, constrangimento e vergonha alheia. Uma garotinha está brincando tranquilamente quando é maltratada por um menino no parquinho. Ao procurar consolo, porém, escuta de uma adulta aquela velha máxima que provavelmente atravessou gerações: ele só está fazendo isso porque gosta de você. Pode parecer uma frase inocente, mas o filme percebe algo bastante perverso escondido nela. Desde muito cedo, algumas mulheres são ensinadas a interpretar desinteresse, crueldade, silêncio e até desprezo masculino como sinais secretos de afeto.

A mentira social de Ele Não Está Tão a Fim de Você

É justamente a partir dessa pequena mentira social que toda a narrativa se constrói. O filme acompanha personagens que, já adultas, continuam tentando encontrar significados ocultos em comportamentos bastante evidentes. Se ele não ligou, talvez esteja ocupado. Se desapareceu depois do encontro, quem sabe perdeu o telefone. E se nunca demonstra qualquer interesse verdadeiro, certamente existe alguma explicação extraordinária que impedirá aquela história de amor maravilhosa de acontecer. Assim, Ele Não Está Tão a Fim de Você transforma em comédia um mecanismo emocional bastante reconhecível: a nossa incrível capacidade de fabricar exceções quando não queremos aceitar aquilo que está diante dos olhos. A sequência inicial não serve apenas como uma piada muito bem construída. Ela estabelece a tese que o roteiro passará as duas horas seguintes desmontando.

Todas as histórias de Ele Não Está Tão a Fim de Você

Sob a direção segura de Ken Kwapis, somos apresentados a um verdadeiro mosaico de personagens cujas trajetórias se cruzam naquele espaço particularmente confuso entre desejo, expectativa, casamento, amizade e rejeição. O filme poderia facilmente ter se tornado uma sucessão cansativa de histórias românticas independentes, mas existe uma unidade temática muito forte costurando todas elas: praticamente todos os personagens estão tentando descobrir se aquilo que desejam corresponde, de alguma maneira, ao que a outra pessoa está realmente disposta a oferecer.

No centro desse emaranhado está Gigi, interpretada por Ginnifer Goodwin com uma mistura irresistível de ansiedade, ingenuidade, insistência e uma energia quase caótica. Gigi é o tipo de pessoa que transforma qualquer gesto masculino em evidência para uma investigação particular. Depois de mais um encontro que aparentemente não dará em nada, ela passa a procurar explicações para o silêncio do rapaz até conhecer Alex, vivido por Justin Long. Bartender e observador experiente das relações humanas, ele rapidamente identifica o problema de Gigi e decide apresentar a ela uma regra aparentemente simples: quando um homem realmente está interessado, ele encontra uma maneira de demonstrar.

A relação central

A relação entre os dois é facilmente o coração do filme. E isso é especialmente curioso porque Ginnifer Goodwin e Justin Long não eram os maiores nomes daquele elenco absolutamente estrelado. Ainda assim, os dois roubam a produção com enorme facilidade. Existe uma espontaneidade adorável nas cenas que compartilham, especialmente porque Gigi e Alex parecem representar extremos opostos de uma mesma discussão. Ela acredita desesperadamente nas exceções; ele acredita apenas nas regras. Gigi enxerga histórias de amor escondidas em todos os lugares, enquanto Alex tenta convencê-la de que, muitas vezes, uma rejeição é simplesmente uma rejeição.

E mais:

Ao redor deles, o roteiro constrói outras variações do mesmo problema. Beth, interpretada por Jennifer Aniston, vive há anos com Neil, personagem de Ben Affleck, e começa a questionar a estabilidade do relacionamento porque ele não deseja se casar. A situação é particularmente interessante porque o filme evita transformar Neil imediatamente no namorado negligente que simplesmente não quer assumir um compromisso. Os dois se amam, dividem uma vida e funcionam muito bem juntos. O conflito surge porque eles atribuem significados diferentes ao casamento. Para Beth, a ausência de uma aliança começa a parecer uma ausência de escolha; para Neil, o compromisso que já existe entre os dois deveria ser suficiente.

Em uma direção completamente diferente está o casamento de Janine e Ben. Jennifer Connelly interpreta Janine com uma rigidez que vai lentamente revelando uma mulher profundamente insegura dentro da própria relação, enquanto Bradley Cooper dá a Ben uma mistura incômoda de covardia e indecisão. Os dois se casaram depois de um ultimato e essa informação aparentemente pequena diz muito sobre a fragilidade daquela união. Quando Ben conhece Anna, uma instrutora de pilates interpretada por Scarlett Johansson, ele se deixa envolver por uma atração que rapidamente expõe problemas que provavelmente já existiam muito antes de ela aparecer.

Além disso:

Anna, por sua vez, também não funciona apenas como a clássica mulher fatal que invade um casamento. O filme permite que ela seja contraditória, insegura e, em determinados momentos, até bastante ingênua em relação ao espaço que ocupa naquela história. Isso ajuda a tornar o triângulo amoroso um pouco mais interessante do que a simples disputa entre esposa e amante. Não existe exatamente um grande vilão comandando a situação. Existem pessoas tomando decisões egoístas, ignorando sinais e tentando adaptar a realidade aos próprios desejos.

Há ainda Mary, personagem de Drew Barrymore, navegando pela então relativamente recente realidade dos encontros mediados pela internet, mensagens de texto, redes sociais e diferentes formas de comunicação digital. Vista hoje, essa parte do filme ganhou até um charme histórico muito particular. O longa foi lançado em 2009, justamente em um momento no qual as relações românticas começavam a passar definitivamente pelo universo digital. Mary reclama que agora pode ser rejeitada por telefone, e-mail, mensagem e diferentes plataformas ao mesmo tempo. Mais de quinze anos depois, a piada continua surpreendentemente atual — talvez até mais atual do que os próprios roteiristas poderiam imaginar.

Ele Não Está Tão a Fim de Você é mais esperto do que parece

Talvez o aspecto mais interessante de Ele Não Está Tão a Fim de Você seja o fato de ele ter surgido da adaptação de um livro de autoajuda e, ainda assim, funcionar muito bem como narrativa cinematográfica. O roteiro poderia facilmente assumir uma postura professoral, transformando cada personagem em exemplo de alguma regra sobre relacionamentos. Em alguns momentos, até chega perigosamente perto disso. Porém, o enorme carisma do elenco e a maneira como as histórias se entrelaçam impedem que o longa se transforme em uma palestra sobre comportamento amoroso.

Existe também algo muito característico das comédias românticas dos anos 2000 em sua estética e em seu ritmo. Baltimore é filmada como uma cidade cheia de cafés, bares, apartamentos aconchegantes e encontros aparentemente casuais. O elenco parece ter sido montado especificamente para fazer o espectador reconhecer um rosto famoso a cada nova sequência. Jennifer Aniston, Ben Affleck, Jennifer Connelly, Bradley Cooper, Scarlett Johansson e Drew Barrymore poderiam facilmente protagonizar filmes próprios. Ainda assim, curiosamente, são Ginnifer Goodwin e Justin Long que produzem a sensação mais genuína de comédia romântica tradicional.

O elenco de Ele Não Está Tão a Fim de Você

Goodwin é especialmente maravilhosa porque nunca tenta tornar Gigi mais sofisticada do que ela realmente é. A personagem é exagerada, carente e muitas vezes embaraçosa. Ela liga demais, interpreta demais, espera demais e cria expectativas com uma velocidade impressionante. Mas existe uma humanidade enorme nesse comportamento. Gigi não está apenas desesperada para encontrar um namorado. Ela deseja acreditar que existe alguma possibilidade extraordinária esperando por ela. Por isso, seu grande aprendizado não consiste simplesmente em descobrir como os homens pensam. Consiste em perceber quando a esperança deixa de ser uma virtude e começa a servir como ferramenta para negar a realidade.

Justin Long encontra o equilíbrio perfeito para Alex. O personagem poderia facilmente se transformar naquele homem arrogante que acredita compreender todas as mulheres e todos os relacionamentos. Existe, evidentemente, um pouco disso nele. Porém, o roteiro tem inteligência suficiente para colocar suas certezas à prova. Afinal, se Gigi precisa aprender que nem toda história é uma exceção, Alex também terá de perceber que regras aparentemente infalíveis deixam de funcionar quando ele próprio se torna emocionalmente envolvido.

A inversão

Essa inversão é uma das melhores escolhas da narrativa. Ao longo do filme, Alex ensina Gigi a parar de procurar sinais escondidos. Então, quando seus próprios sentimentos começam a escapar do esquema racional que criou, ele precisa enfrentar exatamente a espécie de confusão que passara tanto tempo ridicularizando. É nesse momento que a comédia romântica finalmente encontra espaço dentro da tese quase matemática proposta pelo personagem. Às vezes, existem exceções. O problema é que construir a vida inteira esperando ser uma delas talvez seja uma péssima estratégia.

O que o filme diz sobre casamento, traição e rejeição

Outro mérito do longa está em não oferecer a mesma resposta para todos os relacionamentos apresentados. Uma obra menos interessante poderia simplesmente concluir que casamento representa felicidade, solteirice representa fracasso e toda história precisa terminar com um casal unido. Ele Não Está Tão a Fim de Você é mais ambíguo do que isso.

Beth inicialmente acredita que precisa do casamento para validar a relação com Neil. Quando os dois entram em conflito por causa disso, o filme questiona até que ponto uma instituição pode ou não definir a qualidade de um relacionamento. Ao mesmo tempo, a trama de Janine e Ben oferece justamente o contraponto. Eles possuem aquilo que Beth deseja: casamento, casa e uma estrutura aparentemente estabelecida. Isso não significa que sejam felizes. Pelo contrário, a aliança se torna quase irrelevante diante da falta de honestidade entre os dois.

As relações amororsas em Ele Não Está Tão a Fim de Você

É uma escolha narrativa simples, mas muito eficiente. O filme não afirma que casamento é essencial nem que seja desnecessário. Ele sugere algo mais interessante: compromissos só têm valor quando as pessoas envolvidas atribuem a eles significados compatíveis. O problema de Beth e Neil não é necessariamente a ausência de casamento. É o fato de que aquilo que para um parece dispensável representa, para o outro, uma forma importante de reconhecimento. Já o problema de Janine e Ben é muito mais profundo porque existe uma estrutura formal de compromisso sem a sinceridade necessária para sustentá-la.

O mesmo acontece com a rejeição. O longa não tenta suavizá-la. Algumas pessoas simplesmente não gostam de nós da maneira como gostaríamos. Essa é uma constatação óbvia e, ao mesmo tempo, estranhamente difícil de aceitar. Talvez justamente por isso a sequência do parquinho seja tão boa. O filme identifica que frequentemente somos treinados para interpretar o “não” como um enigma, quando às vezes ele significa exatamente aquilo que parece significar.

O final de Ele Não Está Tão a Fim de Você

O desfecho consegue amarrar muito bem essa ideia porque oferece diferentes versões de felicidade. Algumas relações sobrevivem, outras terminam e certas personagens precisam aprender que encerrar uma história também pode representar um avanço. Afinal, talvez o aspecto mais doloroso da vida amorosa não seja descobrir que alguém não está tão a fim de você. É perceber quanto tempo podemos desperdiçar tentando convencer a nós mesmos do contrário.

A trajetória de Gigi funciona justamente porque ela começa acreditando que cada rejeição esconde uma possibilidade romântica e termina mais capaz de reconhecer o próprio valor sem depender de sinais imaginários. Isso não significa que o filme abandone o romantismo. Seria estranho exigir isso de uma comédia romântica tão assumidamente doce. Ele apenas tenta encontrar um equilíbrio entre a fantasia do gênero e uma conclusão emocional um pouco mais madura.

E existe algo bastante encantador nessa combinação. Ele Não Está Tão a Fim de Você acredita no amor, mas não acredita que qualquer migalha de atenção precise ser transformada em romance. Acredita em finais felizes, mas admite que eles podem incluir separações. Acredita que existem exceções, mas lembra que ninguém deveria passar a vida inteira esperando que uma pessoa indiferente milagrosamente se transforme em uma delas.

Veredito

Por trás do elenco de estrelas, da trilha sonora característica de sua época e de todas as situações cômicas, permanece uma ideia muito simples: enxergar a realidade pode ser doloroso, porém geralmente é menos cruel do que viver eternamente tentando reinterpretá-la. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, Ele Não Está Tão a Fim de Você continue sendo uma das comédias românticas mais divertidas e surpreendentemente lúcidas dos anos 2000.

Avaliação: 8/10

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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