“Depois da Caçada” apresenta-se como uma experiência densa. Afinal, ela foi desenhada propositalmente para provocar debates acalorados que permanecem instigando o espectador muito tempo após os créditos finais subirem. Longe das paisagens ensolaradas e do romantismo de “Me Chame Pelo Seu Nome” ou da energia pop de “Rivais”, o cineasta italiano Luca Guadagnino aqui imagina uma encenação quase teatral. Isso porque o filme se pauta por diálogos afiados e uma trilha sonora insistente que sublinha o desconforto constante ao expor o que há de mais tóxico no ambiente universitário. Portanto, “Depois da Caçada” aborda a dificuldade de alinhar o discurso teórico à prática, as fragilidades humanas e a impossibilidade de se afirmar uma verdade única em meio a fragmentos de narrativas contraditórias.
O Choque Geracional: O Embate entre Hank e Maggie no filme Depois da Caçada
A produção coloca frente a frente duas visões de mundo inconciliáveis por meio dos personagens. De um lado, temos Hank, papel de Andrew Garfield, que representa uma geração que se sente sufocada pelas novas normas sociais. Assim, o personagem questiona indignado quando foi que “ofender alguém virou o pior pecado capital”. Do outro, surge Maggie, vivida por Ayo Edebiri, a voz da Geração Z que não se intimida e responde de modo incisivo. Assim, ela sugere que o desconforto de Hank nasce justamente das “generalizações arrebatadoras” que a geração mais velha sempre fez sobre a dela.
No Olho do Furacão: A Crise de Alma, personagem de Julia Roberts em Depois da Caçada
Para complexificar esse embate, a trama nos coloca no “olho do furacão” de um escândalo iminente junto à protagonista Alma (Julia Roberts). Ela é uma acadêmica que vê sua estabilidade ameaçada quando Hank, um colega carismático e adorado, é acusado de conduta imprópria com uma aluna, Maggie. A tensão narrativa reside na construção da dúvida: existe um ceticismo palpável em relação à denúncia, que se alimenta por um histórico de desonestidade acadêmica da aluna. Tudo isso cria um cenário de “disse-me-disse” angustiante. Dessa forma, a busca pela verdade colide com lealdades pessoais e o medo da ruína profissional.
Atuações em Estado de Guerra
O coração dessa tensão reside no trio de protagonistas, que sustenta a narrativa em estado de guerra constante. Julia Roberts entrega sua atuação mais contida e interessante em anos, como uma mulher que construiu uma fortaleza de prestígio sobre um segredo e que agora desmorona silenciosamente. Já Andrew Garfield atua como a “arma secreta” do filme. Isso porque o ator utiliza seu charme natural como escudo e espada. Afinal, sua performance é perturbadora justamente por recusar o vilão óbvio e personificar o “monstro amigável”. Além disso, o personagem representa o privilégio que se sente ofendido ao ser questionado. Completando o triângulo, Ayo Edebiri surge não apenas como vítima ou acusadora, mas como a catalisadora da trama. Assim, constrói uma atuação minimalista cujo olhar carrega o julgamento de uma nova geração desinteressada em apenas manter as aparências.
Depois da Caçada fica entre a Ambiguidade e a Provocação Vazia
É inegável, contudo, que “Depois da Caçada” é um filme difícil. Até por isso, a recepção crítica tem sido majoritariamente negativa. Para muitos avaliadores, o longa tenta equilibrar noções demais — sátira acadêmica, thriller de #MeToo, drama familiar e tragédia grega — mas falha em conectar esses pontos de forma coerente. O consenso aponta que a obra levanta temas incendiários como cancelamento, raça e privilégio apenas como uma “provocação vazia”. E, assim, não tem a oferecer nada substancial ou novo. De fato, Guadagnino apoia-se talvez demasiadamente na dúvida e na ambiguidade do que realmente aconteceu. Este é um recurso que pode soar como uma saída fácil para evitar tomar partidos. Apesar disso, há algo de fascinante na proposta de evidenciar que indivíduos e provas nem sempre são sinônimo de verdade. Assim, “Depois da Caçada” lembra-nos que, por trás de soluções simplistas para dilemas complexos, há sempre uma humanidade desordenada.
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Idealizadora da mentoria “Conexão Raiz”. Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Achei este filme excelente. Recomendo a todos. Não tenho um único comentário negativo sobre “Depois da Caçada”.