Existem filmes que terminam quando os créditos sobem, mas existem outros em que a própria existência da obra está envolvida em um contexto tão vasto que a vida real se torna parte do que a história tem a dizer. É exatamente este o caso de Coiote vs. Acme.
Imagine a premissa: um personagem de desenho animado, historicamente restrito ao seu papel de azarão, decide processar a gigantesca empresa responsável por fabricar os utensílios defeituosos que ele usa. Ironicamente, no mundo real, uma gigantesca empresa (a Warner Bros.) decidiu não lançar o filme, engavetando-o. Felizmente, devido à massiva pressão do público e da indústria cinematográfica, os direitos foram repassados para a Ketchup Entertainment, permitindo que a obra finalmente visse a luz do dia.
E ainda bem que isso aconteceu. Muito além da polêmica de seus bastidores, Coiote vs. Acme é um filme divertidíssimo, inteligente e que sabe homenagear seu legado.
A Genialidade na Mudança de Rota em Coiote vs. Acme
Durante décadas, acompanhamos uma rotina imutável na televisão: o Coiote bolava planos mirabolantes para capturar o Papa-Léguas, utilizando todo tipo de engenhoca fornecida pela empresa ACME. Eram catapultas, ímãs gigantes, dinamites, luvas magnéticas e as famosas (e inexplicáveis) bigornas voadoras. O final da piada era sempre o mesmo: os produtos falhavam tragicamente, explodiam na cara do predador e o Papa-Léguas fugia ileso com o seu clássico “Bip Bip!”.
O filme pega essa piada curtinha, rápida e repetitiva das antigas gerações e a expande de forma genial. O “pulo do gato” do roteiro é fazer a pergunta que ninguém fez em décadas: E se o problema não forem os projetos do Coiote, mas sim a qualidade dos produtos da ACME?
Frustrado e cansado de ser a vítima de falhas mecânicas, o Coiote decide processar a fabricante.
Tribunal, Nonsense e Empatia
Para enfrentar a corporação, o Coiote (que continua se comunicando apenas através de suas clássicas plaquinhas de madeira, agora com “limite de uso”) contrata um advogado de TV, especialista em fechar pequenos acordos com a ACME. Ao lado dele, está uma estagiária idealista e altruísta — interpretada por Lana Condor — que deseja fazer a coisa certa. Juntos, eles enfrentam o impiedoso advogado da corporação, um vilão claro e estereotipado desde a primeira cena.
O que se desenrola na tela é uma mistura orgânica de filme de tribunal, comédia nonsense e desenho animado. A interação entre o live-action (atores reais) e as animações flui com muita naturalidade, tornando aquele universo crível e tátil. Diversos personagens amados dos Looney Tunes fazem aparições em papéis interessantes ao longo da trama.
Um dos maiores trunfos do longa é conseguir adicionar uma camada profunda de empatia ao Coiote, sem que ele deixe de ser o personagem politicamente incorreto que conhecemos. Afinal, por baixo de toda a burocracia judicial, o seu objetivo final ainda é devorar o Papa-Léguas.
Uma Crítica Afiada e Barulhenta
Inspirado em um artigo satírico do jornal The New Yorker, o longa não tem medo de sublinhar sua crítica direta às grandes corporações. Pode ser que o tom direto incomode alguns, mas a sátira funciona perfeitamente justamente por sua criatividade. O diretor sabe lidar com o legado da franquia, respeitando o fato de que os Looney Tunes funcionam à base de um humor físico, barulhento e absurdamente hilário.
Coiote vs. Acme é a prova definitiva de que sair do roteiro pronto pode render frutos maravilhosos. Ao subverter uma fórmula exausta, o filme entrega uma história que envolve, faz pensar e, acima de tudo, arranca boas gargalhadas. É quase impossível assistir a essa obra sem manter um sorriso no rosto.
Avaliação de Coiote vs Acme: 7/10
Vídeo – Coiote vs Acme (2026)
Autoras

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI”, repórter da “Revista Autismo“ e apresentadora do podcast “Boas de Conversa” no canal do YouTube “Selma & Sophia“.. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Autora
Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019). Ela também é youtuber dos canais “Mundo Autista” e “Selma & Sophia“.
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

