Ainda Estou Aqui: Um Triunfo Devastador e Absolutamente Magnífico - O Mundo Autista
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Ainda Estou Aqui: Um Triunfo Devastador e Absolutamente Magnífico

Ainda Estou Aqui, com Fernanda Torres, recebeu duas indicações ao Globo de Ouro e está cotado ao Oscar. Confira a crítica de Sophia Mendonça.

Ainda Estou Aqui, com Fernanda Torres, recebeu duas indicações ao Globo de Ouro e está cotado ao Oscar. Confira a crítica de Sophia Mendonça.

Ainda Estou Aqui, com Fernanda Torres, recebeu duas indicações ao Globo de Ouro e está cotado ao Oscar. Confira a crítica de Sophia Mendonça.

É simplesmente magnífico, e eu não digo isso de forma leviana. Sabe, há filmes que tentam gritar a dor para que você a sinta, mas o que Walter Salles faz em Ainda Estou Aqui é de uma sofisticação e, por isso mesmo, de uma devastação emocional muito mais profunda, porque ele encontra o horror da Ditadura Militar não no espetáculo da violência, mas nas frestas, no vazio da cadeira de um pai que sai para prestar um depoimento e simplesmente nunca mais volta.

O que a Fernanda Torres entrega aqui é uma transfiguração de uma estatura imensa, feita toda na base da filigrana e de uma contenção que corta a gente por dentro; ela interpreta Eunice Paiva com uma sobriedade absoluta, aquela dor que se precisa engolir a seco para que os filhos continuem sorrindo, e não é à toa que o mundo finalmente acordou para ela com o Globo de Ouro e o Oscar.

Qual é a sinopse de Ainda Estou Aqui?

O filme, que adapta com uma fidelidade emocional tocante as memórias de Marcelo Rubens Paiva, nos transporta para o Rio de Janeiro de 1970 com uma reconstituição cirúrgica, mas sem aquele cheiro de naftalina que muitos dramas históricos carregam, mostrando essa transição brutal de uma casa solariega, cheia de música e amigos, para o silêncio sufocante do desaparecimento de Rubens Paiva — vivido por um Selton Mello em estado de graça, com uma doçura e uma integridade ímpares.

Acompanhamos a metamorfose de Eunice, que deixa de ser a dona de casa para se tornar o pilar de aço de uma família e, eventualmente, uma voz fundamental dos direitos humanos, e o grande triunfo do Salles é justamente esse contraste entre o calor humano das memórias familiares corriqueiras e esse medo onipresente e pesado que parece viciar o ar. É um trabalho que fala sobre o trauma coletivo de um país pelo buraco da fechadura, pela intimidade, coroado por uma participação breve, mas de uma força telúrica, da Fernanda Montenegro, que faz você sair do cinema precisando de um tempo para voltar a respirar; enfim, é um filme vital, preciso e absolutamente extraordinário.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.

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Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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