A Noiva Cadáver atinge aquele feito formidável que apenas o melhor do cinema de animação consegue: ser, na superfície, um conto macabro infantojuvenil e, em sua essência, evocar uma melancolia e uma profundidade de sentimentos absolutamente arrebatadoras. Tim Burton, aqui operando no absoluto ápice de sua forma, orquestra um espetáculo em stop-motion que une perfeccionismo visual, humor deliciosamente perverso e uma doçura romântica com um compasso milimétrico. É uma obra sui generis, capaz de arrancar lágrimas insuspeitas de emoção da plateia.
O mundo dos mortos colorido contra a asfixia do mundo dos vivos em A Noiva Cadáver
A grande genialidade da trama reside no seu contraste estético e moral. Quando o desajeitado Victor Van Dort (com a cadência sempre magnética de Johnny Depp) acidentalmente sela seus votos matrimoniais com a trágica Noiva Cadáver (Helena Bonham Carter) em um bosque escuro, somos arrastados para a Terra dos Mortos. E eis a grande ironia burtoniana: enquanto o vilarejo europeu do século XIX onde vive sua noiva viva, Victoria (Emily Watson), é asfixiante, monocromático e pautado por uma moralidade opressiva, o submundo dos mortos é vibrante, anárquico, colorido e embalado por números musicais de um vigor invejável. A vida, afinal, é muito mais burocrática que a morte.
O primor tátil do stop-motion e um desfecho de partir o coração em A Noiva Cadáver
É francamente impossível não se deixar envolver e não torcer por esse triângulo amoroso inusitado. A construção de cada figura animada vai muito além do primor tátil e do artesanato primoroso do stop-motion; há uma expressividade melancólica, uma humanidade latejante sob aqueles bonecos, que transborda da tela. O filme oscila com uma naturalidade espantosa entre o perturbador e o sublime, culminando em um desfecho de uma poesia tão cortante e altruísta que, convenhamos, é de partir o coração. Um deleite macabro e irretocável.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

