Crítica | A Invenção de Hugo Cabret: A Carta de Amor de Scorsese - O Mundo Autista
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Crítica | A Invenção de Hugo Cabret: A Carta de Amor de Scorsese

A Invenção de Hugo Cabret superou O Artista? Crítica sobre a obra-prima de Martin Scorsese que homenageia a magia do cinema.

A Invenção de Hugo Cabret superou O Artista? Crítica sobre a obra-prima de Martin Scorsese que homenageia a magia do cinema.

A Invenção de Hugo Cabret superou O Artista? Crítica sobre a obra-prima de Martin Scorsese que homenageia a magia do cinema.

Voltemos a 2012. Um ano, veja bem, curiosíssimo no Oscar. A disputa pela estatueta de Melhor Filme virou uma verdadeira carta de amor à própria sétima arte. De um lado, tínhamos O Artista, do Michel Hazanavicius, que varreu as principais categorias da noite. Do outro, A Invenção de Hugo Cabret, do mesmíssimo, do formidável Martin Scorsese, que faturou cinco das suas onze indicações. E, olhe, apesar de O Artista ter saído vitorioso na premiação, eu ouso dizer que é a obra de Scorsese que realmente tem o fôlego necessário para sobreviver ao teste do tempo. Porque Hugo Cabret não é apenas um filme; é uma declaração de amor capaz de arrebatar o coração de qualquer um que já se sentou no escuro de uma sala de cinema.

A magia de Georges Méliès e a Paris dos anos 30 em A Invenção de Hugo Cabret

Ambientado na Paris da longínqua década de 30 — e que ambientação esplêndida —, o roteiro de John Logan, adaptando a obra de Brian Selznick, nos apresenta a Hugo, interpretado por um Asa Butterfield de olhos incrivelmente expressivos. Hugo é um órfão que vive escondido nas engrenagens de uma estação de trem, tentando desesperadamente consertar um autômato deixado pelo pai. A virada acontece quando o caderninho de anotações do menino é confiscado por um senhor amargo. É através da espevitada Isabelle, vivida pela Chloë Grace Moretz, que Hugo descobre a verdadeira identidade desse homem: ele é ninguém menos que Georges Méliès, interpretado pelo grandioso Ben Kingsley. O Méliès! Um dos pioneiros absolutos da magia do cinema.

Do ponto de vista técnico, meus caros, A Invenção de Hugo Cabret é deslumbrante. É um filme irrepreensível. Os cenários são de uma riqueza de detalhes que enchem os olhos — aquele estúdio de vidro é qualquer coisa de espetacular. A direção de arte é astutíssima, e basta notar os pequenos retratos dos órfãos capturados pelo Inspetor da estação para perceber o cuidado da produção em contar a história também pelo visual.

Excelência técnica: Direção de arte e atuações de peso em A Invenção de Hugo Cabret

E por falar no elenco, o filme não teria o mesmo peso emocional se não fosse tão bem servido pelos seus atores. Asa Butterfield é de uma precisão cirúrgica como esse menino hábil e obstinado (reparem na delicadeza da cena em que ele conserta um rato de brinquedo), e a Chloë Grace Moretz está ótima no papel de uma jovem culta, que respira literatura. A química e a eficácia dos dois nos transportam de corpo e alma para dentro da tela.

Ben Kingsley, por sua vez, entrega com muita dignidade a melancolia e a posterior transformação de Méliès. A Helen McCrory tem uma participação que merece todos os elogios. Agora, confesso a vocês que o Sacha Baron Cohen, como o Inspetor… não diz a que veio. Ele abandona os exageros de seus personagens habituais, como Brüno ou Borat, é verdade, mas acaba soando como uma nota fora do tom na orquestra.

O ritmo de Scorsese e a trilha de Howard Shore em A Invenção de Hugo Cabret

Na direção, o Scorsese toma o seu tempo. Alguns podem até argumentar que ele desliza aqui e ali ao dar à trama um ritmo compassado demais para o que se espera de um filme infanto-juvenil. Mas, quando ele decide acelerar, como na belíssima sequência de perseguição no final do filme, ele prova por que é um mestre. Ele constrói momentos de tirar o fôlego, embalados de maneira brilhante pela trilha sonora do Howard Shore.

Com um discurso final de Kingsley que é de arrancar lágrimas, A Invenção de Hugo Cabret homenageia o cinema de forma belíssima. É um filme imperdível para qualquer cinéfilo.

Avaliação

Avaliação: 4 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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