Crítica: A Colega Perfeita traz o melhor do DNA Sandler, mas escorrega no tom - O Mundo Autista
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Crítica: A Colega Perfeita traz o melhor do DNA Sandler, mas escorrega no tom

Crítica de A Colega Perfeita, nova comédia da Netflix. Sadie Sandler honra a veia cômica do pai, mas oscilações de tom prejudicam o filme.

Crítica de A Colega Perfeita, nova comédia da Netflix. Sadie Sandler honra a veia cômica do pai, mas oscilações de tom prejudicam o filme.

Crítica de A Colega Perfeita, nova comédia da Netflix. Sadie Sandler honra a veia cômica do pai, mas oscilações de tom prejudicam o filme.

Tem se falado exaustivamente, nos últimos anos, sobre a tal da “epidemia” dos nepo babies em Hollywood, aqueles filhos de figuras da indústria que, graças ao famoso “quem indica”, encontram as portas já abertas. Mas o fato é que, como a nossa excepcional Fernanda Torres apontou com muita propriedade, a transmissão de uma tradição artística dentro de uma família é, no fundo, algo muito bonito de se ver. E um exemplo disso é A Colega Perfeita, que acaba de desembarcar na Netflix trazendo Sadie Sandler, a filha do Adam Sandler, no papel principal.

É fascinante observar o trabalho da Sadie aqui, porque você consegue traçar paralelos imediatos com a veia cômica do pai. Ela preserva aquele estilo que o Adam consagrou: algo meio juvenil, meio familiar, que flerta o tempo todo com o grosseiro. Mas a grande sacada é que essa passagem de bastão traz um frescor tremendo para a tela. A Sadie tem uma sensibilidade muito particular, muito própria da geração dela. E ela tem o mérito de incorporar as habilidades dramáticas do Adam, que por anos foram subestimadas, com uma leveza admirável.

A anatomia de um colapso universitário em A Colega Perfeita

A história começa com um barraco daqueles, em público, entre duas colegas de quarto vividas pela Storm Reid e pela Ivy Wolk. Para tentar dar uma lição de moral nas garotas, a reitora da universidade, interpretada por uma Sarah Sherman que está muito afiada, decide contar a história de uma outra dupla que deu espetacularmente errado. O filme, então, mergulha em um flashback focado na Devon, a personagem da Sadie Sandler, que é uma caloura inteligentíssima, mas totalmente inapta socialmente, e na Celeste, vivida pela Chloe East, que é a garota descolada. A amizade entre as duas começa daquele jeito meteórico e logo descamba para a divisão de um quarto. E, inevitavelmente, para um colapso emocional pautado por limites atropelados, ciúmes e uma codependência sufocante.

A Colega Perfeita e a crível toxicidade das amizades femininas

O que o roteiro faz de muito engenhoso é explorar essas dinâmicas do universo jovem feminino. Ele mescla a cumplicidade e a ingenuidade com uma toxicidade latente. E o colapso dessa relação não se dá por grandes tragédias shakespearianas, veja bem, mas por aquela corrosão mesquinha do dia a dia, que é extremamente crível. É uma cobrança que fica pendente no Venmo, é uma indireta cruel disfarçada de Story no Instagram, são as tensões veladas de classe social. As duas atrizes, aliás, têm um carisma imenso e sustentam muito bem as nuances desses papéis.

Oscilações de tom e potencial desperdiçado

Mas o filme sofre, e sofre muito, com um problema grave de tom. O diretor Chandler Levack parece não conseguir se decidir. A narrativa transita de observações muito ternas sobre o amadurecimento para um humor perverso de uma forma tão brusca que fica difícil para o espectador se entregar àquela proposta. O resultado? Um filme que soa desconjuntado.

Essas hesitações culminam em um desfecho que é, para dizer o mínimo, decepcionante. Além disso, acabam por diluir os momentos em que o texto é genuinamente engraçado. Para piorar, aquela moldura narrativa inicial — a reitora contando a história para as alunas do presente — vira quase um desperdício. Ela não serve para muita coisa além da premissa básica e de uma ou outra piada pontual.

Avaliação

Avaliação: 3 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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