Sobre A Boca do Diabo: A pretensão que apagou a diversão. Para muita gente, o nome de Jeff Wadlow na direção de um longa-metragem de terror ou suspense parece um sinônimo de obra de baixíssima qualidade. Não para mim. Afinal, eu me diverti bastante com Verdade ou Desafio (2018) e com o tão criticado remake de A Ilha da Fantasia (2020). Longe do horror elevado com pretensões sociais densas ou do slasher repleto de sustos, o estilo de Wadlow como cineasta aponta para um caminho mais lúdico. Não é à toa que seu trabalho mais reconhecido na televisão — e que lhe rendeu uma indicação ao DGA Awards — seja a série de terror infantil Are You Afraid of the Dark?.
O estilo lúdico de Jeff Wadlow no terror
Se seus filmes não assustam, não amedrontam, nem causam pavor ou tensão (elementos teoricamente básicos no gênero), eles divertem por uma mistura única de estética charmosa e ritmo frenético. Exemplo disso é o filme de Halloween A Maldição de Bridge Hollow. Também voltado ao público mais jovem e familiar, o longa ofereceu uma oportunidade adequada para Wadlow trabalhar o seu estilo.
Personagens estereotipados e a falta de suspense de A Boca do Diabo
Justamente por ser uma rara defensora do que Wadlow vem fazendo até aqui é que me decepcionei com A Boca do Diabo. O filme tenta seguir um rumo mais sério no que se refere à tensão e ao suspense, mas o espírito da obra permanece tão juvenil e bobinho que fica difícil se envolver ou se conectar com esta trama de sobrevivência e seus personagens. Todos, excetuando a protagonista vivida por Kathryn Newton, seguem um padrão tão estereotipado de jovens em filmes assim — com decisões impulsivas, falta de lógica e muita arrogância — que, mesmo eu sendo hiperempática e tendo facilidade para torcer pelo bem de personagens imperfeitos ou com traços até vilanescos, acabei me irritando. Entendi o final trágico de cada um dos mortos como uma mera consequência de suas próprias ações, o que acaba por limitar consideravelmente o suspense.
O desfecho pretensioso de A Boca do Diabo
O desfecho de A Boca do Diabo, cujo roteiro foi executado depois de ser escolhido como um dos melhores scripts não realizados da indústria, é pretensioso ao querer se relacionar como metáfora com os traumas da pós-adolescência. O filme quer substituir a ideia de um heroísmo aliviador por uma sensação do peso de se conseguir a vitória em um contexto de amizades ruins e sofrimento. Na prática, porém, a ideia provoca um trabalho insosso. Wadlow era bem melhor quando não se levava a sério.
Avaliação: 4/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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