A Bela Adormecida: uma obra-prima visual que deixa sua princesa em segundo plano - O Mundo Autista
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A Bela Adormecida: uma obra-prima visual que deixa sua princesa em segundo plano

Crítica de A Bela Adormecida (1959). A força da vilã Malévola e a trilha sonora adaptada de Tchaikovsky salvam o clássico da Disney.

Crítica de A Bela Adormecida (1959). A força da vilã Malévola e a trilha sonora adaptada de Tchaikovsky salvam o clássico da Disney.

Crítica de A Bela Adormecida (1959). A força da vilã Malévola e a trilha sonora adaptada de Tchaikovsky salvam o clássico da Disney.

Quando a gente olha para o panteão clássico da Disney e para sua coleção praticamente irretocável de contos de fadas protagonizados por princesas, é quase incontornável admitir uma verdade um pouco inconveniente: A Bela Adormecida é, estruturalmente, um filme menor. Isso não significa, de maneira alguma, que seja uma animação ruim. Muito pelo contrário. Pouquíssimas produções do estúdio alcançaram tamanho refinamento visual e musical. O problema está justamente no contraste entre essa excelência estética e a fragilidade daquilo que deveria estar no centro da narrativa: sua protagonista.

A princesa Aurora, de A Bela Adormecida

A raiz dessa questão não é nenhum grande mistério. Falta à princesa Aurora aquele magnetismo, aquela personalidade imediatamente reconhecível que encontramos em outras princesas da Disney. Cinderela, por exemplo, possui uma combinação muito particular de doçura, perseverança e inteligência emocional que faz com que acompanhemos sua trajetória mesmo quando ela não controla os acontecimentos ao seu redor. Aurora, por outro lado, sequer recebe tempo suficiente para que possamos conhecê-la de verdade. Seu tempo de tela é surpreendentemente pequeno para uma personagem que dá nome ao filme e, quando finalmente cai sob a maldição de Malévola, já temos a sensação de que a narrativa está acontecendo muito mais ao redor dela do que propriamente com ela.

É curioso porque A Bela Adormecida constrói toda a sua mitologia em torno de Aurora. Seu nascimento provoca uma celebração no reino, a maldição lançada contra ela determina o conflito central, sua infância é escondida do mundo para protegê-la e seu sono ameaça mergulhar todos aqueles personagens em uma espera indefinida. Ainda assim, a própria princesa permanece pouco explorada. Aurora é delicada, romântica, sonhadora e possui uma presença visual encantadora, mas dificilmente conseguimos definir sua personalidade para além dessas características. Dessa maneira, ela termina como uma espécie de centro simbólico da narrativa sem conseguir ocupar verdadeiramente o posto de protagonista.

O protagonismo do príncipe e o perigo real de Malévola em A Bela Adormecida

Curiosamente, algumas das decisões tomadas justamente para preencher esse vazio acabam sendo extremamente interessantes. Uma delas está na construção do príncipe Phillip. Comparado aos príncipes das animações anteriores da Disney, ele é consideravelmente mais ativo, espirituoso e participante dos acontecimentos. Há até certo humor na maneira como questiona o pai e rejeita a ideia de um casamento arranjado, sem saber que a jovem por quem se apaixonou na floresta é justamente a princesa com quem deveria se casar. Pode parecer pouco para os padrões atuais, mas, dentro do contexto das primeiras animações de princesas do estúdio, essa pequena dose de personalidade já representa uma diferença considerável.

Mais importante ainda é o fato de Phillip efetivamente precisar agir para que o final feliz aconteça. Ele é capturado, precisa escapar da prisão de Malévola, enfrenta uma floresta de espinhos e, finalmente, encara a própria vilã transformada em dragão. Nesse sentido, A Bela Adormecida se aproxima muito mais de uma aventura fantástica tradicional do que de uma narrativa inteiramente centrada em sua princesa. Isso ajuda a explicar por que Aurora parece desaparecer durante boa parte do terceiro ato: o filme transfere deliberadamente sua energia dramática para o príncipe, para as três fadas e, principalmente, para Malévola.

A Malévola original

E é impossível falar sobre A Bela Adormecida sem reconhecer o tamanho de Malévola dentro dessa história. Que criação formidável. Poucas vilãs da Disney foram apresentadas com tamanha combinação de elegância, crueldade e teatralidade. Sua primeira aparição já estabelece imediatamente quem comanda aquela cena. Malévola surge envolta em sombras, com uma silhueta inconfundível e uma tranquilidade quase perturbadora diante do desespero de todos ao seu redor. Ela não precisa gritar nem demonstrar esforço para parecer ameaçadora. Sua força está justamente naquela calma arrogante de quem acredita possuir controle absoluto sobre o destino das outras pessoas.

É Malévola quem injeta gravidade verdadeira na narrativa. A maldição sobre Aurora não parece apenas um obstáculo de conto de fadas, mas uma ameaça que paira sobre toda a história desde os primeiros minutos. Mesmo depois que as fadas levam a princesa para viver escondida na floresta, sabemos que existe alguma coisa esperando por ela. Essa sensação de inevitabilidade torna a sequência em que Aurora, hipnotizada, segue a luz verde até encontrar a roca de fiar particularmente poderosa. Existe algo quase fúnebre na maneira como a cena é construída. A princesa caminha lentamente para aquilo que sabemos ser sua perdição enquanto as fadas tentam desesperadamente alcançá-la. É um dos momentos mais sombrios e belos da animação clássica da Disney.

As três fadas são o verdadeiro coração de A Bela Adormecida

Se Aurora ocupa menos espaço do que deveria, Flora, Fauna e Primavera acabam se transformando no verdadeiro coração emocional de A Bela Adormecida. São elas que tomam as decisões mais importantes, protegem a princesa durante praticamente toda a vida e conduzem boa parte da narrativa. A ideia de três seres mágicos abrirem mão dos próprios poderes e se passarem por mulheres comuns durante dezesseis anos para impedir que uma criança seja encontrada por uma vilã é, inclusive, bastante bonita quando pensamos sobre ela para além do humor das situações domésticas.

A convivência entre as três também oferece alguns dos momentos mais divertidos do filme. A eterna disputa entre Flora e Primavera pela cor do vestido de Aurora é um detalhe aparentemente banal, mas revela como a Disney sabia construir personalidade por meio de pequenas interações. O famoso embate entre o rosa e o azul se tornou tão associado à personagem que continua presente em produtos e representações da princesa décadas depois. Fauna, por sua vez, funciona como uma presença mais conciliadora entre as duas.

O conflito

Há ainda um elemento emocional interessante quando Aurora descobre que é princesa e que deverá abandonar a vida que imaginava para si. É provavelmente o momento em que o filme chega mais perto de conceder à personagem um verdadeiro conflito interior. Ela acabou de conhecer um rapaz por quem acredita estar apaixonada e, de repente, descobre que toda a sua identidade era uma construção, que aquelas mulheres que considerava suas tias são fadas e que seu futuro já havia sido definido desde o nascimento. Aurora chora, mas a narrativa não permanece tempo suficiente com essa dor. Logo ela é levada ao castelo e o mecanismo da maldição volta a ocupar o primeiro plano. É uma pena, porque havia ali material para uma protagonista muito mais interessante.

A sofisticação de Tchaikovsky transforma A Bela Adormecida em espetáculo

Mas, se existe algo que verdadeiramente eleva A Bela Adormecida ao patamar de obra de arte — e aqui é preciso tirar o chapéu para a ambição de Walt Disney —, é o casamento irrepreensível entre animação e música. A utilização do balé A Bela Adormecida, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, como base para a trilha sonora não funciona como simples acompanhamento musical. A música determina o ritmo, a atmosfera e até a própria identidade do filme.

O resultado é uma animação que frequentemente parece estar coreografada como um balé. Os movimentos são elegantes, os cenários possuem uma composição quase teatral e os personagens muitas vezes atravessam os espaços de maneira calculadamente graciosa. Isso fica especialmente evidente no encontro entre Aurora e Phillip na floresta. A sequência poderia ser apenas mais um momento convencional de amor à primeira vista, mas a combinação entre música, movimento e cenário lhe confere uma qualidade quase hipnótica.

Era Uma Vez no Sonho

É impossível não destacar “Era Uma Vez no Sonho”, adaptação de uma das melodias mais conhecidas do balé de Tchaikovsky. Quando Aurora dança pela floresta e Phillip aparece para completar aquele sonho romântico, a música faz boa parte do trabalho emocional que o roteiro não consegue realizar sozinho. Talvez saibamos pouco sobre aquela jovem, talvez o romance se desenvolva rapidamente demais, mas durante aqueles minutos a animação consegue vender perfeitamente a fantasia de um encontro destinado a acontecer.

Nesse aspecto, A Bela Adormecida parece menos preocupada em contar uma história profundamente psicológica e mais interessada em produzir uma experiência sensorial. Não é difícil imaginar cada sequência como parte de um espetáculo montado em um grande palco, com mudanças de cenário, entradas cuidadosamente calculadas e movimentos sincronizados à música. É justamente por isso que algumas fragilidades narrativas se tornam mais fáceis de perdoar enquanto assistimos ao filme.

O visual medieval faz de A Bela Adormecida uma das animações mais bonitas da Disney

Essa sensação de espetáculo é reforçada pela direção de arte extraordinária. A Bela Adormecida possui uma aparência completamente diferente da suavidade encontrada em animações como Cinderela. Seus cenários são esguios, geométricos e frequentemente angulosos, com forte inspiração em tapeçarias, iluminuras e pinturas medievais. Existe uma rigidez proposital nas árvores, nos castelos e até na disposição dos personagens dentro do quadro.

Esse estilo torna o filme imediatamente reconhecível. Mesmo uma pessoa que não saiba qual animação está assistindo dificilmente confundiria um frame de A Bela Adormecida com outro clássico da mesma época. A floresta parece saída de um livro medieval ilustrado; o castelo ocupa o horizonte como uma construção pertencente mais ao imaginário do que à realidade; e o domínio de Malévola abandona qualquer sensação de delicadeza para abraçar sombras, verdes espectrais e estruturas pontiagudas.

É também por isso que a transformação de Malévola em dragão funciona tão bem. Todo o filme parece caminhar para aquela explosão visual. Depois de uma narrativa marcada pela elegância e pela contenção, surge uma criatura gigantesca envolta em fogo, transformando o duelo com Phillip em uma imagem que permanece entre as mais emblemáticas produzidas pelo estúdio. A vilã praticamente rouba o filme em forma humana e encerra a participação fazendo exatamente a mesma coisa como dragão.

A Bela Adormecida é melhor como obra de arte do que como narrativa

Talvez esse seja o paradoxo mais interessante de A Bela Adormecida. Se analisarmos apenas a construção dramática, encontramos problemas difíceis de ignorar. Aurora é pouco desenvolvida, seu romance acontece rápido demais e a personagem desaparece justamente quando a história alcança seu maior conflito. As fadas, o príncipe e a vilã possuem muito mais agência sobre os acontecimentos do que aquela que deveria ser a protagonista.

Por outro lado, poucas animações conseguiram transformar essas limitações em algo tão fascinante de assistir. A Bela Adormecida não possui a riqueza emocional de A Bela e a Fera, nem a força da trajetória de Cinderela, tampouco constrói sua princesa com a profundidade que o próprio conto permitiria. Mas sua música, sua direção de arte e a presença extraordinária de Malévola fazem com que o longa sobreviva às próprias fragilidades.

A forma e o conteúdo de A Bela Adormecida

É uma produção na qual a forma constantemente ameaça engolir o conteúdo — e talvez isso realmente aconteça. Só que, neste caso específico, é difícil reclamar demais. Porque a forma é absolutamente deslumbrante.

Décadas depois, A Bela Adormecida continua parecendo uma pintura medieval que aprendeu a se mover ao som de Tchaikovsky. Talvez Aurora não seja a princesa mais interessante da Disney clássica. Talvez ela seja, de fato, quase uma coadjuvante dentro do filme que leva seu nome. Ainda assim, o universo construído ao redor dela é tão belo, ameaçador e musicalmente exuberante que a animação permanece impossível de ignorar.

Veredito

A Bela Adormecida está longe de ser o conto de fadas mais bem estruturado da Disney, principalmente por desperdiçar uma protagonista que poderia ter sido muito mais interessante. Entretanto, a grandiosidade de Malévola, o inesperado protagonismo das três fadas e do príncipe Phillip, a utilização magnífica da música de Tchaikovsky e uma das direções de arte mais sofisticadas da história do estúdio fazem do filme uma experiência singular.

É uma animação que admiro mais pela maneira como conta sua história do que propriamente pela história que conta. E, quando essa maneira é tão bonita, tão ambiciosa e tão particular, talvez isso já seja motivo suficiente para considerá-la um clássico.

Avaliação: 8/10

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

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Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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