Quando a gente olha para o panteão clássico da Disney e sua coleção irretocável de contos de fadas protagonizados por princesas, é quase incontornável admitir uma verdade inconveniente. A Bela Adormecida é, estruturalmente, um filme menor.
E a raiz desse problema não é nenhum grande mistério. Falta à Aurora aquele magnetismo, aquele carisma arrebatador que nós nos acostumamos a ver em suas colegas de realeza. Isso para não mencionar o tempo de tela dela, que é, francamente, pífio. Ela acaba se tornando uma coadjuvante na própria tragédia.
O Protagonismo do Príncipe e o Perigo Real de Malévola em A Bela Adormecida
Curiosamente, no entanto, o filme toma algumas decisões narrativas que são uma verdadeira lufada de ar fresco. A ideia de conferir ao príncipe uma personalidade mais proativa e robusta, dessa vez, não é apenas interessante — é fundamental para fazer a história andar.
Outro trunfo da animação é a Malévola. Que criação formidável. Ela é uma personagem fascinante, com um design intrigante e uma presença genuinamente assustadora. É ela quem injeta gravidade na narrativa. A Malévola traz um senso de risco, de perigo real e iminente que sustenta o filme nas costas do início ao fim.
A Sofisticação de Tchaikovsky: A Trilha Sonora como Espetáculo em A Bela Adormecida
Mas, se há algo que verdadeiramente eleva A Bela Adormecida ao patamar de obra de arte — e aqui, me desculpem, mas é preciso tirar o chapéu para a ambição de Walt Disney —, é o seu casamento irrepreensível com o balé de Pyotr Ilyich Tchaikovsky.
A decisão de adaptar as partituras da obra russa do século XIX para construir a trilha sonora do filme é, para dizer o mínimo, de uma sofisticação ímpar. O resultado prático disso é que cada frame da animação, que já possui aquele visual esguio, anguloso e inspirado nas tapeçarias medievais, ganha uma escala quase operística.
A música preenche os vazios deixados pela falta de desenvolvimento da nossa protagonista. Quando ouvimos os acordes majestosos de Era Uma Vez no Sonho, que nada mais é do que uma adaptação lindíssima da valsa original de Tchaikovsky, a gente quase perdoa as falhas de roteiro. Porque, prestando atenção à sincronia daquela música grandiosa com a movimentação graciosa na tela, fica evidente que o filme não queria ser apenas uma animação infantil qualquer; ele almejava ser um espetáculo erudito em movimento.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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