Amplamente divulgado como o filme brasileiro mais caro já produzido, Corrida dos Bichos chega cercado de expectativas. Um dos motivos é a presença de Fernando Meirelles no trio de diretores. O cineasta retorna à direção de um longa-metragem em língua portuguesa pela primeira vez desde Cidade de Deus, obra que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Nesse intervalo, comandou produções internacionais prestigiadas, como O Jardineiro Fiel e Dois Papas. Some-se a isso um elenco estrelado, que reúne nomes como Isis Valverde, Grazi Massafera, Rodrigo Santoro e Bruno Gagliasso.
Um Jogos Vorazes à brasileira?
O problema é que o filme não consegue fazer jus às expectativas provocadas por essa combinação. Corrida dos Bichos parece buscar uma espécie de Jogos Vorazes à brasileira: uma competição brutal inserida em uma sociedade atravessada pela desigualdade, transformando o espetáculo da violência em comentário social. A comparação, porém, acaba evidenciando as limitações do longa. O filme parece estar sempre prestes a decolar, mas nunca ganha impulso suficiente para isso.
O roteiro é o principal problema de Corrida dos Bichos
Falta, sobretudo, força ao roteiro. Há boas ideias espalhadas pela narrativa, mas elas raramente se transformam em conflitos tão interessantes quanto poderiam ser. Corrupção, desigualdade social, catástrofe, resiliência e esperança aparecem como temas importantes, porém o longa não os desenvolve com profundidade suficiente para que adquiram verdadeiro peso dramático. Da mesma forma, a ação nem sempre encontra a tensão necessária para transformar a competição em uma experiência realmente eletrizante. O resultado é uma obra que aponta para muitas possibilidades, mas explora poucas delas até o fim.
Parkour e ação estão entre os destaques do filme
É uma pena porque Corrida dos Bichos possui elementos bastante promissores. As atuações são competentes, e as sequências de ação — especialmente aquelas que incorporam o parkour — conferem energia ao filme. Mais interessante ainda é sua construção de mundo, provavelmente o maior trunfo da produção. Da caracterização dos personagens à apresentação das regras do jogo, percebe-se um cuidado considerável na criação desse universo.
A construção de mundo é o maior trunfo
Também funciona a tentativa de transformar a própria competição em metáfora para as provações da vida. É justamente aí que surge a maior frustração: existe um mundo potencialmente rico diante do espectador, mas o roteiro não consegue extrair dele toda a criatividade, a tensão ou a potência social que sua premissa permitiria.
Corrida dos Bichos terá continuações?
Segundo Meirelles, o plano é realizar mais dois filmes caso Corrida dos Bichos encontre público. Talvez uma continuação possa justamente aproveitar aquilo que este primeiro capítulo faz de melhor: expandir seu universo, explorar melhor suas regras e dar maior densidade aos conflitos que aqui permanecem apenas sugeridos. Como início de uma possível franquia, há terreno fértil. Como filme isolado, porém, Corrida dos Bichos ainda parece uma promessa mais interessante do que sua realização.
Avaliação: 6/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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