Castelo do Medo é um telefilme da Nickelodeon que se destaca em meio às produções da emissora. Isso ocorre tanto pela curiosa metáfora envolvendo licantropia e adolescência quanto pela estética, que é macabra e gótica, mas, ao mesmo tempo, familiar e aconchegante. Esta divertida produção, protagonizada por Victoria Justice (de séries como Brilhante Victoria e Zoey 101), trabalha uma série de elementos do terror, como castelo gótico, sangue e criaturas assustadoras.
O Terror Lúdico: Medo e Diversão na Medida Certa
Não há, no entanto, a tentativa de provocar risco ou medo intensos. O filme, na verdade, funciona mais como uma brincadeira com toda essa construção. É, portanto, uma obra que mira em um público usualmente esquecido em produções live-action: os pré-adolescentes e as crianças que desejam ter contato com o gênero do terror sem, contudo, serem expostos a cenas inadequadas para essa faixa etária.
A História de Castelo do Medo: Segredos em Wolfsberg
Sempre considerei o terror um gênero lúdico, e o filme compreende isso bem, sem limitar a experiência a uma brincadeira bobinha. Isso porque há uma transformação no decorrer da obra que permite que Castelo do Medo debata temas como luto, feminilidade e adolescência. E o que Castelo do Medo faz de particularmente curioso é transformar o body horror da adolescência feminina em comédia corporal. Os pelos, a fome, os impulsos e as alterações físicas permanecem, mas aquilo que em outros filmes produziria repulsa e horror, aqui é convertido em humor, aventura e no prazer da transformação.
Em Castelo do Medo (The Boy Who Cried Werewolf, 2010), Jordan Sands (Victoria Justice) é uma adolescente tímida e insegura que vive com o pai, David (Matt Winston), e o irmão mais novo, Hunter (Chase Ellison), um garoto fascinado por histórias de monstros. Ainda tentando se reorganizar após a morte da mãe e enfrentando dificuldades financeiras, a família descobre ter herdado de um parente distante um antigo castelo em Wolfsberg, na Romênia.
A viagem coloca os Sands em contato com lendas locais e segredos familiares, além da enigmática Madame Varcolac (Brooke Shields), responsável por cuidar da propriedade. Durante a exploração do castelo, um acidente em um laboratório secreto inicia em Jordan uma transformação inesperada: suas alergias desaparecem, seus sentidos ficam mais aguçados, sua força aumenta e até seus desejos e sua maneira de se relacionar com o próprio corpo começam a mudar. A jovem descobre, então, que está gradualmente se transformando em uma lobisomem.
A Metáfora da Licantropia: Feminilidade e Amadurecimento
Dessa forma, Castelo do Medo transforma a tradicional figura do lobisomem adolescente em uma fantasia juvenil sobre experimentar novas possibilidades de si. Ao tornar-se loba, Jordan descobre uma força, um desejo, uma presença corporal e uma autoconfiança que pareciam inacessíveis à garota do início. Entretanto, o filme nunca resolve completamente a contradição entre libertá-la das limitações impostas à feminilidade e tornar essa liberdade visível por meio dos códigos igualmente normativos do makeover: beleza, sensualidade e desejabilidade. É nessa tensão, aliás, que o filme se torna ainda mais interessante. Isso porque percebemos que o crescimento exige um processo de fidelidade aos nossos valores e autenticidades e, ao mesmo tempo, a capacidade de flexibilização e adaptação ao que o mundo deseja e valoriza. Este processo de negociação entre autoaceitação e autorreflexão, na busca pelo amadurecimento, é um processo constante e complexo que o filme aborda com sutileza e perspicácia.
O Processo de Transformação e o Brilho de Victoria Justice
A crítica acadêmica Hannah Priest, ao estudar lobisomens adolescentes, diferencia o simples estado de “ser” lobisomem do processo de becoming-werewolf (tornar-se lobisomem). Para ela, é na mutabilidade, e nas possibilidades de escolha e autoexpressão abertas durante a mudança, que reside o verdadeiro potencial da metáfora. Essa distinção parece especialmente produtiva em Castelo do Medo. Isso porque Jordan não precisa permanecer loba para que aquilo que viveu a transforme. Ao retornar à humanidade, ela já conhece outras maneiras de habitar seu próprio corpo e ocupar o mundo. Victoria Justice é hábil nessa construção. Afinal, ela entende que o momento mais interessante de Jordan não é nem a garota insegura do início, nem a criatura plenamente transformada. Trata-se, na verdade, daquilo que existe entre as duas, ou seja, uma adolescente cujo corpo deixa de confirmar as categorias pelas quais ela costumava compreender a si mesma.
Direção e Elenco: O Equilíbrio entre o Gótico e a Comédia
A habilidade do filme em equilibrar essas diferentes tonalidades também passa pelo trabalho do diretor Eric Bross e dos roteiristas Art Edler Brown e Douglas Sloan. Aqui, o gótico permanece reconhecível sem se tornar excessivamente ameaçador. Bross já havia transitado por gêneros bastante diferentes em trabalhos como Restaurant, a minissérie Traffic e o terror Vacancy 2, mas aqui utiliza essa experiência para construir uma obra conscientemente voltada ao público jovem. O resultado foi reconhecido pelo próprio Directors Guild of America, que premiou Bross pela direção de Castelo do Medo. Já Brown e Sloan, que também participaram da produção executiva, foram indicados ao Writers Guild Award pelo roteiro. Grande parte do encanto do telefilme está na segurança com que ele negocia referências do horror, humor juvenil, aventura e drama familiar.
Também contribui para essa mistura de registros a presença de Brooke Shields como Madame Varcolac, a austera e misteriosa responsável pelo castelo. Shields aposta em uma seriedade quase impassível que frequentemente torna suas cenas mais engraçadas. É uma escolha particularmente eficiente porque Madame Varcolac ocupa a fronteira que organiza todo o filme. Ela parece pertencer a uma história de horror gótico mais tradicional, mas está inserida em uma comédia juvenil que constantemente desmonta a solenidade desse imaginário. A escalação de uma atriz muito mais experiente ao lado do jovem elenco também confere à personagem uma autoridade imediata. Enquanto Victoria Justice representa a descoberta e a transformação, Shields parece carregar consigo a memória, os segredos e as regras daquele universo fantástico.
Avaliação de Castelo do Medo: 7/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI”, repórter da “Revista Autismo“ e apresentadora do podcast “Boas de Conversa” no canal do YouTube “Selma & Sophia“.. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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