Se há algo que o cinema comercial americano sabe fazer quando está de bom humor, é o espetáculo pelo espetáculo. E Burlesque (2010) é exatamente isso: uma extravagância visual desenfreada, mas controlada com uma precisão notável. Trata-se, portanto, de um musical deliciosamente leve, otimista e um verdadeiro deleite para os olhos.
A Jornada Clássica de Burlesque: Um Enredo Familiar e Confortável
A trama não se propõe a reinventar a roda. E nem precisa. Temos aqui a quintessência do clichê: a garota do interior, dona de grandes sonhos e uma voz colossal, que se vê na missão de salvar o mesmíssimo local onde anseia trabalhar e brilhar. Mas, convenhamos, o clichê, quando é bem articulado, tem o seu valor inestimável. Isso porque ele funciona como uma poltrona macia. Aqui, o enredo nos abraça com uma familiaridade que é confortável, do início ao fim.
O Poder das Divas de Burlesque: Cher e Christina Aguilera em Cena
O que eleva Burlesque de um passatempo esquecível para um filme de tração formidável, no entanto, é o seu elenco. Capitaneada por Cher e Christina Aguilera, a obra ganha um peso diferente. Elas entregam atuações muito seguras para o gênero. Além disso, trazem para a tela toda aquela autoridade magnética e imponente que só as verdadeiras divas pop possuem. Quando estão em cena, a narrativa, escorada nessa presença estelar, torna-se simplesmente irresistível.
Elenco de Apoio de Peso de Burlesque: Stanley Tucci e Julianne Hough:
Contudo, seria um erro crasso ignorar o elenco de apoio. Stanley Tucci, com aquele carisma irretocável que já virou sua marca registrada, é um charme à parte. E Julianne Hough, por sua vez, injeta uma energia vital à tela com suas formidáveis habilidades de dançarina. É verdade que a construção desses personagens secundários e a resolução de seus dramas são simples. Porém, o talento e a vivacidade desse grupo compensam qualquer superficialidade do roteiro.
Trilha Sonora e Fotografia de Burlesque: Homenagem Aos Anos 50 e 60
Tudo isso é embalado por uma fotografia elegantíssima e uma trilha sonora que é um acerto certeiro. Com ótimas músicas originais, o filme presta uma homenagem muito afetuosa e vibrante aos estilos das décadas de 1950 e 1960. E os números musicais? Ora, eles contam com coreografias que podem até ser simples na sua concepção, mas são encenadas com uma competência admirável.
Burlesque: Uma Estética Camp na Medida Certa
No final das contas, Burlesque é uma obra que flerta descaradamente com o exagero e com a estética camp. A corda bamba entre o brilho glamouroso e o desastre espalhafatoso é muito fina, mas o filme caminha por ela com um equilíbrio admirável, sem jamais despencar para os excessos visuais ou narrativos indesejados. É uma lantejoula perfeitamente iluminada sob o holofote: não quer mudar a história do cinema, mas sabe exatamente o que é. E faz isso muito bem.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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