Se tem um território em que a diretora Sofia Coppola adora transitar, é o do tédio misturado ao excesso. E em Bling Ring, o grande trunfo dela é justamente a objetividade quase clínica com que disseca essa realidade hiperbólica de roubos, drogas e pura ostentação. É uma lente muito perspicaz, que não poupa ninguém: expõe com a mesma crueza tanto a futilidade dos ídolos quanto a insanidade dos fãs.
Mas, por mais qualidade que a direção tenha, o filme acaba esbarrando em um problema incontornável: a própria limitação da história que se propõe a contar. Porque, francamente, a partir da terceira ou quarta invasão de mansão para roubar sapatos de grife, a narrativa se torna inevitavelmente repetitiva. A rasura daquelas vidas acaba, de certa forma, engessando o próprio filme.
O Jovem Elenco de Bling Ring e a Perfeita Representação do Vazio
Quanto ao jovem elenco, os atores vestem a pele daqueles personagens e absorvem aquele mundo ilusório com uma naturalidade que chega a dar aflição. Eles entendem perfeitamente o vazio que precisam representar.
Sem Lição de Moral: O Espectador como Juiz da História de Bling Ring
O que me leva à grande virtude da Sofia Coppola aqui: a sua recusa absoluta em ser didática. Ela não mastiga a moral da história, não aponta o dedo na cara de ninguém e não dá sermão. Ela simplesmente escancara a porta daquele universo e recua, deixando que cada espectador tire as suas próprias conclusões sobre a falência moral de tudo aquilo.
Para envelopar essa jornada, a fotografia esteticamente caprichada e uma trilha sonora muito bem pontuada fazem o trabalho pesado. Elas não só traduzem com imensa competência a atmosfera frenética desses garotos, como também injetam o ritmo necessário para que a trama caminhe com uma desenvoltura e uma rapidez que, de outra forma, talvez lhe faltassem.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

