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Big Little Lies: Como a Série Subverte o Mistério e Expõe a Fúria Feminina

Estudo sobre a 1ª temporada de Big Little Lies, abordando como a série subverte o whodunit para expor traumas, hipocrisia e a união feminina.

Estudo sobre a 1ª temporada de Big Little Lies, abordando como a série subverte o whodunit para expor traumas, hipocrisia e a união feminina.

A primeira temporada de Big Little Lies, da HBO, subverte o gênero de mistério criminal, o clássico “quem matou?”. Isso porque a série realiza um estudo profundo e incisivo sobre a hipocrisia social, traumas persistentes, dinâmicas de poder e a fúria feminina. Tudo isso ambientado no contexto ultra-rico de Monterey, na Califórnia.

A narrativa examina a longevidade do trauma e os limites da intimidade. Mais do que isso, a obra expõe dinâmicas de gênero profundamente enraizadas. Com isso, mostra mulheres bagunçadas, complexas e furiosas. Elas são tanto exploradas por uma ordem social machista, onde ainda figuram como as únicas responsáveis por criar os filhos, quanto, por vezes, cúmplices em perpetuá-la para a próxima geração.

O Falso “Whodunit” e o Foco no “Por Quê” na primeira temporada de Big Little Lies

A narrativa tem como mistério central um assassinato ocorre durante a luxuosa festa beneficente da escola primária local. No entanto, a trama subverte a estrutura clássica do mistério criminal ao omitir, até os instantes finais, não apenas a identidade do assassino, mas também a da própria vítima. Dessa forma, a história volta a atenção para o por quê aconteceu.

Contada em retrospectiva a partir do primeiro dia do ano letivo, a montagem intercala os acontecimentos com os depoimentos fofoqueiros e parciais dos moradores da cidade à polícia. Esses personagens secundários funcionam como um moderno “coro grego”, competitivo e julgador. As protagonistas não aparecem depondo, o que as coloca em uma zona limiar: estariam elas na posição de suspeitas ou de vítimas?

O estopim da trama ocorre no dia da orientação escolar. A dinâmica aparentemente perfeita da comunidade sofre um abalo sísmico com a chegada de Jane Chapman (Shailene Woodley). Ela é uma jovem mãe solteira de classe média recém-chegada com seu filho, Ziggy. Logo no primeiro dia, Ziggy é acusado por Amabella, filha da poderosa executiva Renata Klein (Laura Dern), de tê-la machucado e enforcado.

Ziggy nega veementemente a acusação, e Jane o defende com fervor. É então que Madeline Mackenzie (Reese Witherspoon), uma mãe influente e de personalidade explosiva que havia acabado de conhecer Jane, toma as dores da recém-chegada. Esse incidente, superficialmente trivial, divide as famílias.

Em meio a dramas densos, o elenco brilha na composição de personagens repletas de nuances. Por exemplo, até a Renata de Laura Dern, embora surja como a encarnação de uma megera implacável, subverte a expectativa do público com um arco verossímil de redenção. Reese Witherspoon, a Madeline Mackenzie, também brilha. Falando sempre por impulso, Madeline coleciona frustrações com seu ex-marido e lida de forma turbulenta com a filha adolescente. Apesar disso, sua vitalidade e capacidade imensa de se conectar ao próximo a tornam fascinante.

O Retrato da Violência Doméstica em Big Little Lies

É na abordagem complexa e dolorosa da violência doméstica que a série atinge o ápice dramático. Afinal, a trama expõe que o abuso não escolhe classe social. E Nicole Kidman transmite de forma irretocável os sentimentos confusos de culpa e as falsas justificativas típicas da vítima. Em contrapartida, Alexander Skarsgård assombra ao demonstrar a transição milimétrica entre o marido amoroso e o agressor cruel. Ele exibe um remorso genuíno mas que, tragicamente, nunca serve para interromper o ciclo contínuo de violência.

A Direção Sensorial e Visceral de Jean-Marc Vallée

Toda a tensão é embalada por uma estética singular. Isso porque o diretor Jean-Marc Vallée refina o naturalismo visceral com foco no trabalho de atores, que o consagrou em Clube de Compras Dallas. Assim, a direção aposta em uma fotografia inquieta, e evita iluminação artificial excessiva. Utilizando câmeras na mão quase voyeurísticas, a lente espiona as protagonistas através de frestas, espelhos e dos imensos vidros de suas mansões litorâneas. O que traduz visualmente o sofrimento emocional escondido sob a fachada de perfeição.

Esse mergulho psicológico na mente fraturada de cada personagem é amarrado pelo brilhante design de som e uma trilha musical estritamente diegética. As músicas são escolhidas e tocadas ativamente pelas próprias personagens em seus carros ou fones de ouvido. Vallée transforma o áudio, aliado a uma montagem de flashes impressionistas, em uma extensão dolorosa e pulsante dos traumas, desejos e segredos inconfessáveis de cada mulher.

Avaliação: 10/10

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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