O terror psicológico ganhou novos contornos nos cinemas com o lançamento de “Backrooms”, uma produção da A24. Em vez de apelar para a escuridão e as sombras, o filme explora um medo construído por meio de excessos. Isso quer dizer luzes fluorescentes, ambientes monocromáticos e zumbidos intermináveis. Aliás, esse apelo sensorial dialoga com as vivências de pessoas neurodivergentes.
A Origem do “Não-Lugar”
A lenda de “Backrooms” começou a ganhar força na internet por volta de 2019, em fóruns como o 4chan, com imagens de lugares amplos, infinitos e angustiantes. A estética envolve carpetes mofados, um tom de amarelo dominando as paredes e um constante ruído elétrico.
A popularidade do conceito chamou a atenção de um jovem talento no YouTube, o diretor Kane Parsons, que nasceu em 2005. Em 2022, ele passou a publicar curtas-metragens arrepiantes sobre o tema. O sucesso o levou, aos 20 anos de idade, a ser contratado com um grande orçamento pela A24. Foi assim que transformou essa realidade paralela em um longa-metragem cinematográfico.
O Enredo: O Trauma em Meio ao Infinito
Apesar de o foco do filme ser o ambiente, há uma narrativa guiando o espectador. A história acompanha um homem que lida com o alcoolismo e o luto pela perda de sua esposa, e que acaba morando em sua própria loja. Um dia, ele descobre um acesso a esse “não-lugar”. Quando ele fica preso nessa realidade paralela, a sua psicóloga, motivada pela preocupação com seu paciente, decide ir atrás dele para descobrir o que aconteceu.
Ainda que existam monstros e criaturas misteriosas à espreita, eles acabam ficando em segundo plano. Afinal, a verdadeira ameaça do filme é o próprio cenário.
O Terror Sensorial na Visão Autista
A principal força de Backrooms reside em como ele foge do horror tradicional, que geralmente é marcado pela escuridão, para criar um ambiente extremamente claro e iluminado. Dessa forma a experiência de assistir ao filme transcende o medo comum.
A combinação opressora de zumbidos estridentes, luzes fortes e a cor amarela incessante se relaciona, de forma assustadora, à percepção aumentada que muitas pessoas autistas enfrentam no mundo real.
O autista geralmente busca uma sensação de segurança que, no filme, é completamente arrancada. O conceito de estar em um lugar que não tem saída e que parece não ter fim pode causar extrema aflição. Como a noção de abstração e tempo pode ser diferente no espectro, a dor da claustrofobia e da falta de controle se torna avassaladora.
Veredito: “Backrooms“
Backrooms é uma experiência cinematográfica peculiar. Ele desafia os espectadores a confrontarem seus próprios limites sensoriais. Ainda que a obra talvez não alcance a dinâmica imediatista e direta dos curtas originais do YouTube, que não dependiam de amarras narrativas, é um longa que vale muito a pena ser conferido.
Avaliação de Backrooms: 6/10
Vídeo – Backrooms

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Autoras
Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019).
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Você perdeu o medo do filme. O medo relacionado é o medo da falta de familiaridade em um local aparentemente familiar, e o nome para isso é terror liminal, um terror sobre a falta de início e fim. Quando você observa um ambiente, normalmente, você consegue ver uma entrada/saída ou tem uma ideia de onde elas estão, mas, quando você é capaz de retirar essa sensação de início e final, você cria um lugar liminal, um lugar que é apenas a transição da entrada para a saída. Esse lugar liminal na vida real, aparece como andares de hotéis que aparentam continuar indeterminadamente, uma estrada reta que ser perde na neblina e não há nada indicando o que ocorre com ela ou uma casa com geometria estranha, que faz parecer que você já a viu antes ou sabe como ela seria estruturalmebte, mas não é, o que traz um ar de nostalgia, o que piora o medo de nada fazer sentido.
As Backrooms são sobre a culminação desse medo com nostalgia: é um lugar onde tudo parece igual, sempre o mesmo papel de parede amarelo fosco, o carpete marrom/cinza no chão, uma estrutura com objetos que parecem fazer sentido até você olhar novamente e o som de luz fluorescente remetendo a casas americanas de 20-30 anos atrás. O medo não está no sensorial, pois o sensorial é remetente a um lugar nostálgico para as pessoas, ele está na falta de fim e na infinitude de algo que parece fazer sentido no primeiro momento, mas não faz. Para aumentar o medo deste lugar, também é descrito o quão silencioso (além do som de luz fluorescente) as Backrooms são, e caso você escute alguma coisa, está coisa também terá escutado você.
Na versão das Backrooms de Kane Parsons, também é explorado o medo da cópia infinita, onde tudo o que existe, já existiu e vai existir está presente nas Backrooms, mas você tem que encontrá-los, remetendo ao mito da Biblioteca de Babel.
Você focou tanto no autismo e na perda do sensorial que não experienciou o verdadeiro medo do filme, onde o sensorial serve apenas para trazer uma nostalgia do passado. Este artigo foca em algo que nunca foi parte do problema, e por isso, eu tive que fazer esse comentário falando sobre o quão ruim ele é.