Hoje quero falar sobre autismo, o peso do julgamento e a cultura do cancelamento. Aliás, a “cultura do cancelamento” tornou-se um dos fenômenos digitais mais marcantes da nossa era. Em sua essência, trata-se de uma dinâmica na qual usuários se unem para boicotar e expor publicamente figuras, marcas ou até anônimos cujas falas ou ações sejam consideradas moralmente inaceitáveis. Se o objetivo inicial era cobrar responsabilidade social, percebo que a prática frequentemente evolui para um verdadeiro linchamento virtual.
Nesse cenário, uma frase que vi recentemente no Instagram me chamou muita atenção: “Eu já nasci cancelada, eu sou autista.” Não sei de quem é a autoria, mas eu meio que me identifiquei imediatamente, ao mesmo tempo em que as implicações dessa constatação me preocupam profundamente.
A Lente do Preconceito e o Meu Esforço Desproporcional: o peso do julgamento e a cultura do cancelamento
Sendo autista, percebo que, para algumas pessoas, parece ser muito mais fácil me colocar em um padrão de “louca” ou “desequilibrada”. É uma tática cruel, mas eficaz para descredibilizar minhas falas e opiniões, por mais embasadas que elas estejam.
Para uma parcela do público — que acredito e espero ser a minoria —, eu já nasci com um rótulo. É como se eu existisse para frustrar as expectativas de quem eu deveria ser ou do que seria correto do ponto de vista comportamental. Se eu saio um pouco do script social, o peso disso contra mim é sempre desproporcional. O que eu sinto na prática é:
- A exigência do mascaramento: É como se eu tivesse que me esforçar muito mais para ser simpática e ponderada para que alguma percepção minha seja, de fato, levada em conta.
- O estigma constante: Todas as minhas ações passam a ser lidas pela lente de alguém “cognitivamente doente”.
Por mais que o autismo seja um transtorno, uma deficiência e uma neurodivergência, a visão estereotipada da condição altamente debilitante ainda é muito presente. Isso afeta até mesmo nós, pessoas com menor nível de suporte, que passamos a ser vistas ou como fraudes, ou como enlouquecidas.
Isso acontecer repetidamente dói. E pode, sim, gerar hiper-reações a eventos banais, que acabam apenas alimentando essa repetição. Para piorar, muitas pessoas já iniciam um debate com um posicionamento definido e não se abrem para acolher, aprender com o outro ou se deixar levar pelos afetos que nos transformam.
Por Que Nós, Autistas, Somos Tão Vulneráveis? O peso do julgamento e a cultura do cancelamento
Em minha vivência, percebo que autistas são incrivelmente vulneráveis ao cancelamento pela maneira sem filtros como abordamos nossos posicionamentos. Muitos de nós somos sinceros demais, ou temos uma coragem e uma ingenuidade excessivas para lidar com temas polêmicos.
Em um contexto no qual as pessoas frequentemente buscam defeitos no outro apenas para defender suas próprias ideias, nós somos um prato cheio. Eu mesma experienciei o cancelamento em alguns contextos. Muitas vezes, eu poderia até ter razão no conteúdo do que dizia, mas falhei na maneira de me expressar. A dura realidade que enfrentei foi que a comunidade não costuma aceitar falhas de autistas. Por agir daquela forma, não recebi benevolência nem compaixão — apenas bloqueios, exclusões e críticas ferozes.
Nunca entendi esse tipo de postura beligerante. Gosto muito de uma frase de Daisaku Ikeda que resume minha visão sobre isso:
“Você não ganha nada apontando os defeitos dos outros. Seja um incentivador de pessoas.”
O Desafio da Representatividade
O cancelamento também esbarra muito na questão da representatividade. Na arte ou nas mídias sociais — diferentemente da ciência —, nós representamos aquele afeto específico, aquele personagem, ou a nossa própria história. É simplesmente impossível abarcar tudo, ainda mais em uma condição tão plural quanto o TEA.
Infelizmente, muitas pessoas não entendem isso e se sentem ofendidas. Não é porque eu, ou qualquer outro autista, narro uma vitória cotidiana que estou desmerecendo ou ofendendo pessoas com maior demanda de suporte. Muitas vezes, falta ao tribunal da internet o entendimento básico de que algumas vivências são puramente individuais.
O Caminho do Humanismo: Escolhendo Não Devolver na Mesma Moeda
Por outro lado, aceitar passivamente essa posição de “eu já nasci cancelada” pode parecer o caminho mais fácil, mais humano e natural. Afinal, se é dessa forma que me tratam, é dessa forma que eu deveria devolver à sociedade, certo?
Porém, eu nunca acreditei na Lei de Talião. A esse tipo de preconceito — que às vezes cruza a linha e se torna discriminação —, eu busco responder com minhas ações e com a minha postura humanista.
Portanto, não ceder a fofocas nem à agressividade é o caminho que trilho para reverter o cancelamento. É um esforço árduo, e confesso que nem sempre consigo. Algumas relações se perdem nesse processo. Mas aprendi a acreditar que a gente não perde o que não tem; logo, na verdade, não há perdas.
De qualquer maneira, as situações de cancelamento que vivi me trouxeram um forte aprendizado e me catapultaram para lugares melhores. No Budismo, aprendi que uma pessoa verdadeiramente sábia não se curva às oscilações da vida, como a infâmia, a calúnia, a felicidade ou o reconhecimento. É um treinamento de caráter constante, mas incrivelmente gratificante quando conseguimos surpreender a nós mesmos e aos outros com a nossa transformação. Aplicar isso me trouxe paz e permitiu que, independentemente do ruído lá fora, a minha jornada continuasse a prosperar.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

