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Autismo e os desafios da saúde bucal

O autismo impacta a saúde bucal. Leia um relato inspirador de superação no TEA, além de dados científicos e dicas práticas de higiene dental.

O autismo impacta a saúde bucal. Leia um relato inspirador de superação no TEA, além de dados científicos e dicas práticas de higiene dental.

Sobre Autismo e os desafios da saúde bucal. O autismo nunca vem sozinho. Para muitas pessoas no espectro como eu, as vivências diárias são frequentemente acompanhadas de desafios invisíveis para a maioria da população. Hoje, quero compartilhar uma história de vitória pessoal que resgata não apenas a saúde física, mas também a minha autoestima e confiança. Trata-se da minha reconquista do sorriso.

A Ciência por Trás da Nossa Luta Diária: Autismo e os Desafios da Saúde Bucal

Desde pequena, a higiene bucal foi um desafio gigantesco. Para quem está no espectro, questões sensoriais com texturas e cheiros, somadas à dificuldade de coordenação motora, podem tornar o simples ato de escovar os dentes ou passar o fio dental uma verdadeira batalha. E a ciência nos mostra que não estamos sozinhos nessa dificuldade.

Indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) são mais suscetíveis a desenvolver doenças bucais crônicas não transmissíveis. Isso ocorre devido a uma combinação de fatores: seletividade alimentar, efeitos colaterais do uso de medicamentos e padrões comportamentais associados a hábitos orais prejudiciais.

Para se ter uma dimensão desse impacto, um estudo publicado no International Journal of Clinical Pediatric Dentistry em novembro de 2025 investigou a prevalência de distúrbios de desenvolvimento dentário. A pesquisa, realizada em Chennai, na Índia, comparou 673 crianças (de 3 a 13 anos) neurodivergentes e neurotípicas. Os resultados evidenciaram uma diferença clínica assustadora:

  • Prevalência Geral: 51,6% das crianças com TEA e TDAH apresentaram distúrbios no desenvolvimento dentário, um forte contraste com os 22,6% do grupo neurotípico.
  • Falta de Dentes (Hipodontia): Afetou 7,1% das crianças atípicas, contra apenas 0,9% dos controles.
  • Dentes Supranumerários e Defeitos de Forma: Taxas visivelmente maiores de incisivos laterais conoides (6,5% contra 1,5%) e cúspide em garra (3,6% contra 0,6%).
  • Hipoplasia de Esmalte: O defeito estrutural mais comum, afetando 21,4% das crianças com TEA/TDAH, em comparação a 9,5% das neurotípicas.

Os autores explicam que essa alta incidência reflete uma interação etiológica complexa. Fatores como estresse fisiológico, desafios nutricionais e sensibilidades sensoriais severas durante a formação da matriz do esmalte afetam diretamente a nossa saúde bucal. Tudo isso reforça a necessidade crítica de avaliações odontológicas precoces e de um acompanhamento transdisciplinar.

A Minha Trajetória com Autismo e os Desafios da Saúde Bucal: Do Desgaste à Resignação

Na infância e adolescência, tive a sorte de contar com o acompanhamento excelente da Clínica Ariane Marques – Odontologia Integrada. No entanto, com os inúmeros desafios de saúde física e mental que enfrentei na entrada da fase adulta, acabei me desapegando desse cuidado essencial.

Com o tempo, a má formação genética que eu já possuía nos dentes se uniu aos efeitos de medicamentos que reduziram a produção de saliva da minha boca. O desgaste foi inevitável. Meus dentes ficaram menores, irregulares e amarelados. Cheguei a um ponto de aceitação onde achava que essa parte de mim não tinha conserto. Sempre que a minha mãe dizia, preocupada: “Os dentes da Sophia vão cair!”, eu apenas respondia, resignada, que resolveria aquilo no futuro com um implante.

O Ponto de Virada em Pelotas

Mas a vida nos surpreende! Aqui em Pelotas (RS), tive a sorte de cruzar o caminho de profissionais incríveis: o Dr. Luís Bayardo (@luisbayardowe) e a Dra. Ana Júlia Labres, da MW Odontologia.

Com uma abordagem super didática, inclusiva e muito amorosa — somada ao talento imenso da Dra. Ana na restauração —, eles reconstruíram o meu sorriso, dente por dente. Além da estética, o processo foi educativo. Hoje, tenho muito mais destreza para a escovação e para passar o fio dental, e prometi a mim mesma que vou cuidar de tudo direitinho.

A saúde bucal envolve estética, saúde física e qualidade de vida. Eu me sentia muito mal com o meu reflexo e acreditava que não havia mais solução. Hoje, com o tratamento finalizado, recuperei a confiança que eu achei que tivesse perdido para sempre. Estou extremamente feliz e pronta para muitos sorrisos novos!

Dicas Práticas: Como Adaptar a Rotina de Higiene Bucal no Autismo

Se você ou seu filho também passam por isso, saiba que a saúde bucal no autismo é um grande desafio diário devido a dois fatores centrais:

  1. Particularidades sensoriais: Hipo ou hipersensibilidade a texturas, sabores, sons e luzes.
  2. Dificuldades motoras: Condições como a dispraxia ou o baixo tônus muscular, que dificultam o movimento coordenado exigido na escovação.

A chave para resolver essas questões não é forçar a adaptação do indivíduo ao padrão neurotípico, mas sim adaptar o ambiente e os materiais para que a experiência seja previsível e livre de dor. Aqui estão algumas adaptações que funcionam:

  • Creme Dental Neutro: A maioria das pastas de dente tem um sabor forte de menta que pode causar forte sobrecarga sensorial. Optar por opções neutras ou sem sabor pode facilitar a aceitação. O único cuidado é garantir que a pasta contenha a quantidade adequada de flúor (mínimo de 1.000 ppm) para prevenir cáries.
  • Apoio Visual e Previsibilidade: Vários de nos se beneficiam enormemente de rotinas visuais. Ter um quadro com o passo a passo ilustrado no banheiro ajuda a estruturar a atividade. Uma ótima dica é dividir a boca em quatro quadrantes e contar em voz alta (de 1 a 10) enquanto escova cada um. Saber exatamente quando a escovação vai acabar reduz a ansiedade de forma drástica.
  • Escovas de Dentes Adaptadas: Se houver dificuldade motora para fazer o movimento clássico de varredura, a escova de três lados (3D) é uma excelente aliada. Ela “abraça” o dente e limpa a frente, o topo e a parte de trás em um único movimento. Para aqueles que buscam regulação sensorial através de vibração, as escovas elétricas podem ser úteis. Mas, se houver aversão a ruídos, escovas manuais ultramacias são a escolha perfeita. Fio dental, só uso com haste.

Autora

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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