Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações - O Mundo Autista
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Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações

Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações. Descubra como transformar decepções em força e autocuidado.

Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações. Descubra como transformar decepções em força e autocuidado.

Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações. Descubra como transformar decepções em força e autocuidado.

Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações. Um dos aspectos que frequentemente travam a fluidez dos relacionamentos na trajetória de muitas pessoas autistas é a dificuldade em desenvolver a chamada malícia social. Perceber as verdadeiras intenções de uma pessoa pode ser um tremendo desafio, especialmente quando essas intenções são prejudiciais. Essa característica de interpretação literal e boa-fé inerente se acirra de forma perigosa em ambientes altamente competitivos, como o mercado de trabalho.

Muito Além dos Estereótipos: A Passionalidade Autista, Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações

Ao contrário dos estereótipos que ainda pairam sobre o autismo — que frequentemente nos pintam como pessoas distantes ou sem emoção —, a realidade pode ser diametralmente oposta. Em muitos casos, inclusive atravessados por comorbidades, somos pessoas profundamente passionais.

Muitos de nós aprendem a ler as pessoas não pelos jogos de poder, mas pela relação afetiva e pelo coração. Com o tempo e a experiência, a vida nos ensina a observar as contradições: aquelas pessoas que se dizem muito amorosas no discurso, mas que agem de modo completamente diferente na prática.

Ainda assim, a tendência natural é buscar conexão com o aspecto mais puro e humano que existe no outro. E é curioso notar que, em geral, mesmo as pessoas que não são queridas pela maioria tendem a retribuir com sentimentos mais doces quando são tratadas com essa genuína aceitação.

O Atraso na Percepção e a Armadilha da Crise

O verdadeiro problema surge diante da hostilidade disfarçada. Quando a humilhação, a subjugação ou o destrato acontecem, a percepção desse abuso geralmente não é imediata. Ela vem com um doloroso atraso. Muitas vezes, a pessoa autista só percebe que está sendo violentada emocionalmente quando aquela situação já não seria tolerada por nenhuma outra pessoa neurotípica. E aqui reside uma das maiores injustiças nas relações sociais: por mais que tentemos agir com empatia, doçura e paciência, se uma crise (meltdown) ocorrer, aquele recorte específico de descontrole será cruelmente usado contra nós, como se aquela fosse a nossa postura desde o começo.

O Mercado de Trabalho e o Perigo da “Utilidade”

Ainda que a preferência seja acreditar na bondade inerente de cada um, a vivência impõe a necessidade de aprender a estabelecer limites. É vital parar de conviver com quem machuca ou prejudica de forma sistemática.

No ambiente profissional, isso é muito comum. Há casos clássicos, como a “amiga” que se aproveita de tudo o que foi construído na intimidade para prejudicar o colega autista quando passa a enxergá-lo como uma ameaça à sua própria projeção de carreira. Chegar ao ponto de conseguir se afastar dessas dinâmicas, portanto, é um marco de sobrevivência.

Durante muito tempo, é possível que a pessoa autista seja aquela que todos querem ter por perto não por afeto, mas por utilidade: por ser comunicativa, influente ou colaborar profissionalmente. O choque de realidade, contdo, vem ao perceber que poucos, ou quase ninguém, a queriam por perto pela sua essência.

Do Ceticismo ao Autocuidado, Autismo e a Malícia Social: O Desafio de Ler as Entrelinhas das Relações

Passar por sucessivas frustrações sociais pode transformar toda a inocência e a crença no valor humano em um profundo e amargo ceticismo. Mas é preciso ter cuidado para não se enganar: o cinismo também comete suas distorções.

A grande virada de chave não é passar a odiar o mundo, mas sim mudar o foco da energia investida. Em vez de fomentar e nutrir expectativas sobre os outros, o caminho mais seguro é:

  • Fortalecer a própria vida: Coloque-se como prioridade.
  • Investir em autocuidado: Respeite seus limites sensoriais e emocionais.
  • Focar no autodesenvolvimento: Cresça por você e para você.

Quando você se levanta sozinho e foca na sua própria jornada, a neblina se dissipa. É nesse momento de independência emocional que você descobre quem são, de fato, os seus verdadeiros aliados. E, a partir daí, passa a ter profunda gratidão por cada um deles.

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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