Todos os dias, quando inicio o meu ritual de orações matinais, estabeleço para mim mesma um propósito claro, o de purificar o meu coração. Para mim, isso significa escolher viver a vida sem nenhum vestígio de mesquinhez. Portanto, trata-se de um compromisso diário de confiar em mim mesma, de enxergar o lado melhor de cada pessoa e de seguir em frente. Dessa forma, recuso-me a viver lamentando ou sofrendo pelas feridas e traumas do passado.
A Escolha de Seguir em Frente, o Autismo e a busca por se manter funcional
Se não nos desapegarmos das dores que ficaram para trás, acabamos perdendo a capacidade de olhar para o que está bem diante de nós. Claro que, às vezes, um questionamento interno me invade: “Da última vez que você decidiu purificar seu coração, acabou confiando em pessoas que não trouxeram bons frutos.” Assim, é natural buscar estratégias para lidar com os outros e consigo mesmo.
O amadurecimento, portanto, é importante. Aliás, a minha prática budista e a minha visão de mundo consistem exatamente em pegar os golpes duros que a vida dá e transformá-los em incentivo. Dessa forma, torna-se possível criar novas possibilidades de felicidade e cultivar a paz. Isso vale tanto para mim quanto para aqueles que cruzam o meu caminho.
Saúde Mental e a Resiliência Diária
Recentemente, em uma consulta com meu psiquiatra, tivemos uma conversa muito reveladora. Ele pontuou que estou em uma fase muito boa, o que vê resultado direto dos esforços na psicoterapia.
Ele me aconselhou a ter o cuidado de me manter sempre funcional. Houve um tempo em que eu não gostava dessa palavra quando usada para definir o que uma pessoa é ou deixa de ser. Hoje, entendo o seu real valor. Com isso, ser funcional tornou-se um objetivo essencial na minha vida. Em meio a crises de ansiedade, episódios de depressão e todas as dificuldades que afetam a autonomia diária, manter-me funcional é, na verdade, uma grande vitória. É o que me permite continuar caminhando, lidar com os altos e baixos e, sobretudo, manter o controle sobre a minha própria história.
Lidando com as Adversidades do Autismo e a busca por se manter funcional
O caminho do autoconhecimento não nos blinda contra novas dores. Recentemente, vivi uma situação inesperada que me causou sofrimento e envolveu minha família. Situações como essa, onde os limites e a confiança são testados, machucam profundamente. Contudo, são justamente os alicerces que construo a cada manhã, ou seja, a oração, a busca por um coração puro e o foco na minha funcionalidade, que me dão suporte para não desmoronar. E impedem que os problemas se tornem uma bola de neve.
Viver sem mesquinhez não significa ser imune à dor, mas sim escolher não deixar que as atitudes dos outros ditem a nossa paz interior. E, um dia de cada vez, continuo a minha caminhada. Assim, abraço as minhas vulnerabilidades e celebro cada vitória.

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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