Análise do Livro "Diversos Diálogos": Autismo, Neurodiversidade e a Dupla Empatia - O Mundo Autista
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Análise do Livro “Diversos Diálogos”: Autismo, Neurodiversidade e a Dupla Empatia

Análise do livro Diversos Diálogos: reflexões sobre o TEA, neurodiversidade e a dupla empatia; A inspiradora história de Selma e Sophia.

Análise do livro Diversos Diálogos: reflexões sobre o TEA, neurodiversidade e a dupla empatia; A inspiradora história de Selma e Sophia.

Análise do Livro “Diversos Diálogos”: Autismo, Neurodiversidade e a Dupla Empatia. A história de Selma chega primeiro, mas ela é atravessada pela história de Sophia. E é ela quem vai dar a mão à mãe, essa vez, nos caminhos do diagnóstico. Aliás, ele é vivido como alívio e iluminação. Afinal, Selma nos fala de luto e, junto a Sophia, transforma o substantivo em verbo. Então, a luta se desenha em cada palavra lida neste livro que é, ele mesmo, um instrumento de transformação.

O processo de elaboração do luto envolve, segundo a psicologia, cinco etapas. Elas são: negação, raiva, negociação/barganha, depressão e aceitação. O que as autoras dessa narrativa nos ensinam é que há uma etapa além: a afirmação!

Neurodiversidade e a Relação Mãe e Filha no Espectro

Esse livro é escrito em dupla, filha e mãe. É uma dupla, mas não são um duplo. Afinal, são duas pessoas corajosas e interessadas em construir um mundo em que haja espaço para a neurodiversidade. Há, entretanto, encontros e desencontros nesses caminhos. Talvez o mais bonito dessa história seja o quanto ela nos convoca à intimidade com a diferença. Sejam as diferenças entre elas – Selma e Sophia –, seja perceber o TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) como um espectro, sem linearidade. Ou ainda, sobretudo, a afirmação do autismo como um modo de ser no mundo, diferente de outros, e pleno de possibilidades.

O Problema da Dupla Empatia: Autismo e Comunicação

Damien Milton é também autista, pai de um menino com autismo e sociólogo. Ele pesquisa o que chama de “problema da dupla empatia”, uma teoria que ganha destaque no contato com as reflexões trazidas por Selma e Sophia.

É preciso lembrar que se o TEA é, essencialmente, marcado por questões sociocomunicativas, só a partir do entendimento de que a comunicação enreda o outro é que vamos compreender que tais questões envolvem não apenas a oferta de melhores recursos de comunicação para as pessoas no espectro, mas implicam também a mudança de olhar, postura e linguagem de todas as pessoas com quem os autistas estão em contato. É uma via de mão dupla.

Para Milton, a falta de entendimento é recíproca e central e precisa ser superada, por isso ele denomina esse mútuo desconhecimento de “problema da dupla empatia”. Ou seja, os autistas não dominam bem os códigos sociais e comunicacionais do mundo produzido por determinadas normas, criadas para e pelos neurotípicos — que, por sua vez, historicamente, pouco se interessam em compreender e acolher os neurodivergentes.

Inclusão no TEA: Desafios e Responsabilidade Social Coletiva

Até muito recentemente, os desafios vividos pelas pessoas com TEA eram vistos como problemas exclusivos dessas pessoas. Aqui, vemos que esses desafios nos implicam a todos, pois integramos cotidianamente a arquitetura das barreiras que as pessoas com autismo enfrentam. Mas podemos nos unir na construção do arco que sustenta a ponte necessária para a plena participação das pessoas com TEA na sociedade, o que só se dá a partir da compreensão e do entendimento dos neurotípicos sobre o Transtorno do Espectro do Autismo. A mudança depende das muitas pedras que desenham a ponte.

O livro de Selma e Sophia mostra, da perspectiva de quem vive, com delicadeza e força, os desafios e as potências do TEA e a importância da partilha do espaço comum, de todos, por todos.

Histórias que Transformam: A Força Afirmativa das Diferenças

Oliver Sacks escreveu: “Nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos — as histórias que recategorizamos e refinamos continuamente. (…) A memória surge não só da experiência, mas também da interação de muitas mentes”.

O tecido que as memórias de Selma e Sophia tramam ensina sobre neurodiversidade, amor e luta. Ensinam que a neurodiversidade é um convite à sociedade para sair desse projeto normalizante, em que não cabem todos, em que cabem tão poucos — os mais tristes, os que não vivem nada de extraordinário nas suas vidas, apenas a repetição de um modelo de norma. A história de Selma e Sophia contém o melhor dos afetos, a alegria, que não ignora desafios e dificuldades; ao contrário, aumenta nossa potência de agir e produz afirmações a partir das adversidades.

Afirmação das diferenças.

Livro “Diversos Diálogos”

Autora

Maria Luísa Magalhães Nogueira: Psicóloga e Professora Dra. Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integrante da coordenação do LEAD (Laboratório de Estudo e Extensão em Autismo e Desenvolvimento), do PRAIA (Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo) e do Curso de Especialização em Transtornos do Espectro do Autismo, todos vinculados à UFMG.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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