Assistir a Pobres Criaturas é, antes de tudo, sentar-se à mesa de um banquete suntuoso. Afinal, o filme oferece uma quantidade tão vasta de estímulos visuais, narrativos e emocionais. Então, é quase impossível absorver tudo em apenas duas horas de projeção. Portanto, trata-se de uma daquelas raras obras que deixam o espectador atônito diante de tantas camadas para explorar, provar e digerir.
A Atuação Magistral de Emma Stone em Pobres Criaturas: Um Desafio Corporal
O grande trunfo do filme começa pela atuação magistral de Emma Stone. A atriz, que já havia provado sua versatilidade na transição entre diferentes perfis de personagens ao longo de sua carreira, entrega aqui um trabalho de corpo e expressão facial impressionante. Ela assume o desafio complexo de interpretar uma mulher adulta que recebeu o cérebro de um bebê. Como a mente é infantil, mas o corpo já está totalmente formado, a personagem precisa reaprender a existir no mundo do zero. Assim, a forma como ela se levanta e anda reproduz com perfeição a coordenação motora de um bebê, executada de forma intrigante em um corpo adulto. Somado a isso, a maneira de se comportar sem filtros e de se alimentar de forma caótica escancara o choque entre a natureza crua de uma criança e as expectativas de comportamento da sociedade.
A Fome de Mundo: O Despertar de Uma Nova Mulher
Sem as amarras, os traumas ou os condicionamentos de uma infância e adolescência tradicionais, a protagonista experimenta um aprendizado acelerado e peculiar. Então, ao descobrir a própria sexualidade e perceber que a vida pode não se limitar ao espaço em que foi criada, surge nela um desejo incontrolável, típico do início da juventude: o anseio de desbravar o mundo com a certeza de que “pode tudo”. Ao contrário de uma criação inspirada puramente no monstro de Frankenstein, ela não é uma criatura trágica e monstruosa, mas sim uma página em branco absorvendo a vida em um ritmo frenético.
A Ruína do Macho Controlador e o Papel de Mark Ruffalo em Pobres Criaturas
Nessa jornada de descoberta, ela cruza o caminho do personagem de Mark Ruffalo. Ele é um homem rico, mulherengo e extremamente autoconfiante, que vê na ingenuidade da protagonista a oportunidade perfeita de ter um troféu submisso. E a leva consigo, acreditando estar no controle absoluto da situação. No entanto, o feitiço se vira contra o feiticeiro. Isso porque a pureza e a total falta de convenções sociais da personagem fazem com que ela não compreenda, e muito menos aceite, a noção de posse e ciúme. O resultado é a ruína psicológica do homem. Afinal, ele se apaixona por aquilo que não pode controlar e vê sua personalidade inabalável se desmanchar. Assim, o filme expõe de forma brilhante como a estrutura do amor possessivo masculino entra em colapso quando a mulher simplesmente se recusa a jogar o jogo social esperado.
A Frieza Científica Diante do Afeto Paterno
Até mesmo o cientista que a criou — uma figura paterna que ela chama de “God” (Deus) —, e que pela lógica de sua profissão deveria ser guiado apenas pela frieza do método científico, não escapa dos sentimentos. Ele desenvolve um amor paternal profundo pela sua criação. Com isso, mostra que a humanidade e o afeto são incontornáveis, mesmo nas mentes mais pragmáticas.
Estética e Intertextualidade em Pobres Criaturas: Um Prato Cheio para Cinéfilos
A obra também é um prato cheio para estudiosos de cinema e literatura comparada. Isso porque ela celebra a máxima de que nada se cria do zero por meio de uma colagem riquíssima de referências. A estética do filme corrobora essa riqueza intertextual, com uma direção de arte, figurinos e uma paleta de cores exuberantes que contam a história paralelamente ao roteiro e refletem o despertar e o deslumbramento da protagonista.
No fim, Pobres Criaturas revela-se uma experiência densa, colorida e provocativa que desafia as normas de gênero. E, além disso, disseca o comportamento humano e celebra a descoberta da autonomia. Com tantas mensagens e possibilidades, a sensação ao subirem os créditos é uma só: duas horas não são suficientes para uma obra tão fantástica, imperdível e que, sem dúvida, exige ser assistida novamente.
Avaliação: 9/10

Autoras
Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019).
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
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