America's Next Top Model: O Legado Tóxico e Inovador do Reality de Tyra Banks - O Mundo Autista
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America’s Next Top Model: O Legado Tóxico e Inovador do Reality de Tyra Banks

America’s Next Top Model: O Legado Tóxico e Inovador do Reality de Tyra Banks. Crítica do documentário “Reality Check”.

America's Next Top Model: O Legado Tóxico e Inovador do Reality de Tyra Banks. Crítica do documentário "Reality Check".

America's Next Top Model: O Legado Tóxico e Inovador do Reality de Tyra Banks. Crítica do documentário "Reality Check".

Revisitar America’s Next Top Model (ANTM) por meio de um olhar documental recente é como embarcar em uma máquina do tempo rumo aos anos 2000. Então, para quem acompanhou o programa, a experiência desperta um misto de conforto nostálgico e choque moral. Isso porque o reality show encapsula com perfeição o zeitgeist midiático daquela década.

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Assim, ele oferecia a promessa de sonhos grandiosos, a estética inconfundível e o entretenimento construído à base de altos padrões de exigência. No entanto, sob a lente dos valores atuais, muitas das práticas naturalizadas no programa tornaram-se indefensáveis. 

Representatividade e a Reprodução de Traumas em America’s Next Top Model

O documentário acerta ao abraçar a complexidade do legado de ANTM. Ao mesmo tempo em que o programa foi pioneiro em diversos aspectos, ele também foi palco de abusos que hoje seriam impensáveis na televisão. Havia, por exemplo, uma obsessão perigosa pela magreza extrema e uma pressão profissional desmedida sobre jovens inexperientes. Além disso, momentos pessoais dolorosos eram rotineiramente explorados em prol do entretenimento. Para piorar, a tolerância a assédios verbais e até sexuais, além da manipulação cruel de narrativas, expõem a toxicidade dos bastidores.

Em contrapartida, é inegável o caráter inovador do show. Afinal, em uma época em que a televisão ainda tateava o assunto, ANTM trouxe representatividade queer para o horário nobre. No centro de tudo, uma mulher negra, Tyra Banks, estabelecia-se como uma empresária criativa e poderosa em uma indústria historicamente elitista.

Tyra Banks e o documentário de America’s Next Top Model

A figura de Tyra Banks, aliás, é central para entender essa dicotomia. Ela frequentemente justificava o tom do programa como uma tentativa de combater as regras cruéis da alta moda. No entanto, a execução dessa ideia acabou ilustrando perfeitamente um conceito clássico de Paulo Freire: ​”Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” Então, em vez de quebrar o ciclo, Banks acabou reproduzindo nas competidoras as mesmas violências e traumas que sofreu nas passarelas.

Houve uma espécie de retaliação contra a indústria. Contudo, isso aconteceu sem o cuidado com as consequências que isso causaria em gerações de meninas. Hoje, há a recusa parcial de Tyra em assumir responsabilidade por esses danos. Afinal, oferecer respostas evasivas sobre aprender com os erros parece insuficiente diante da gravidade das situações expostas.

As Omissões do Documentário: O Sucesso Pós-ANTM

Apesar de ser um registro reflexivo e necessário, o documentário peca por omissão em alguns aspectos importantes do legado positivo ro reality show. Sente-se a ausência de participantes que transcenderam o programa e alcançaram sucesso genuíno em Hollywood e na moda global. Nomes como Yaya DaCosta e Lio Tipton, que construíram sólidas carreiras na atuação; ou ​Winnie Harlow, que quebrou barreiras na moda mundial ao trazer visibilidade para o vitiligo.

Além de lançar talentos, o programa teve momentos de vanguarda social. Para muitos espectadores, a introdução de participantes neurodivergentes (como Heather Kuzmich, com Síndrome de Asperger, na temporada de 2007) foi o primeiro contato educativo com essas realidades.

O Futuro de America’s Next Top Model: Um Novo Ciclo é Possível Hoje?

Com Tyra Banks sugerindo a possibilidade de um novo ciclo de ANTM, a grande questão é como o programa deve voltar. Afinal, se quiser sobreviver no cenário atual, as correções mostram-se necessárias. Para aqueles que viveram o auge dos anos 2000, o documentário é um convite para refletir sobre a cultura da e reconhecer os avanços que fizemos como sociedade. E, ao mesmo tempo, abraçar o carinho por um programa que, com todos os seus problemas, marcou a história da televisão.

Avaliação de “Reality Check: Inside Americas Next Top Model” (2026)

Avaliação: 3.5 de 5.

Vídeo – “Reality Check: Inside Americas Next Top Model” (2026)

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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