A Substância: Entenda a Simbologia e o Final Catártico do Filme de Body Horror - O Mundo Autista
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A Substância: Entenda a Simbologia e o Final Catártico do Filme de Body Horror

A Substância: Entenda a Simbologia e o Final Catártico do Filme de Body Horror. O Grito de Fúria Premiado em Cannes e no Oscar.

A Substância: Entenda a Simbologia e o Final Catártico do Filme de Body Horror. O Grito de Fúria Premiado em Cannes e no Oscar.

A Substância: Entenda a Simbologia e o Final Catártico do Filme de Body Horror. O Grito de Fúria Premiado em Cannes e no Oscar.

Olha, a experiência de assistir a A Substância, francamente, é um assombro. O filme de Coralie Fargeat, que não por acaso saiu de Cannes com o merecidíssimo prêmio de Melhor Roteiro, é o que eu chamaria de um soco no estômago desferido com precisão cirúrgica. Quando as luzes da sala se acendem, a sensação que fica é a de que acabamos de testemunhar um grito de fúria que estava entalado na garganta há séculos, mas que aqui irrompe orquestrado com uma frieza quase assustadora.

E veja bem como ela faz isso: ancorada em um elenco enxuto, mas que entrega performances que beiram o sublime. O que Demi Moore e Margaret Qualley fazem aqui é de uma coragem, de uma entrega visceral, que me deixou estupefata. O filme pega o body horror — aquele horror físico, das entranhas — e o vira do avesso para escancarar a objetificação da mulher. A raiva, a repulsa, o conflito absurdo de se enxergar sempre pelas lentes implacáveis do olhar alheio… está tudo ali, pulsando na tela, e é impossível você ficar indiferente.

O Horror Corporal como Espelho da Objetificação no filme A Substância

É uma obra que tem ressoado de maneira muito profunda, e até dolorosa, entre as mulheres. E isso vai desde aquelas que nunca deram a mínima para procedimentos estéticos até aquelas que foram moídas por essa cobrança social por uma juventude eterna, ainda que a um custo sangrento. E aqui entra a figura patética, e por isso mesmo aterradora, do diretor da emissora interpretado pelo Dennis Quaid. Para o sistema que ele representa, um Oscar na estante não vale de absolutamente nada se você não for uma embalagem lustrosa. É cruel.

A Lente da Repulsa: O Estilo Visual de Coralie Fargeat

E aí, é preciso aplaudir de pé a direção visual da Fargeat. Ela usa aquelas lentes grandes angulares para filmar o Quaid e esse universo masculino de uma maneira que nos causa um nojo, uma aversão imediata, quase tátil. É um contraponto espantoso à beleza madura — e eu diria majestosa — da Demi Moore. A mensagem é claríssima: a mulher não entra nessa espiral de transformação por um capricho fútil. Ela é encurralada, porque, nesse mercado, se a sua aparência sai da validade estipulada, toda a sua competência vira fumaça.

A Catarse do Óbvio: O Simbolismo do Desfecho de A Substância

Para coroar, a direção de arte traduz a solidão esmagadora dessa protagonista com uma melancolia cortante, enquanto o roteiro acerta em cheio ao mostrar que a versão jovem não é só uma cópia; as individualidades delas colidem de forma implacável. E aí nós chegamos àquele final. Nos últimos vinte minutos… olha, tem quem ache simplista, quase pueril. Você pode até se perguntar: “a mensagem já não estava óbvia?”. Mas a genialidade da Coralie Fargeat está justamente em subverter a nossa expectativa da sutileza. Ela pega o óbvio e o transforma em uma catarse monumental, banhada em absurdos e simbolismos. É um desfecho, sinceramente, de perder o fôlego.

Avaliação

Avaliação: 5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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