O Mundo Autista

A nostalgia de um tempo sem (com) máscaras

A imagem mostra máscaras que usamos para falar sobre A nostalgia de um tempo sem (com) máscaras. Máscaras de rostos: Site Voyager

É bem interessante refletir sobre essa nostalgia de um tempo em que não havia pandemia. Dessa forma, fomos obrigados, todos, a usar máscaras. Agora, que saudade de nos vermos além do recorte da parte superior de nossos rostos. Certamente, a faixa de proteção que cobre e esconde nossas bocas, narizes, bochechas e queixos, nos impede de enxergar o outro. E muito mais: nos impede de ler o outro, de compreender o outro… Será?

Minha dificuldade com as máscaras

Eu tenho imensa dificuldade para reconhecer amigos atrás das máscaras. Assim, ando na rua e escuto alguém chamar meu nome. Olho. Mas levo um tempo para associar a voz à pessoa.

Certamente, falta aquele conjunto de centenas de tensões musculares faciais que me levam ao jeito da pessoa. Dessa forma é que percebo a reação esboçada, velha conhecida e, por isso mesmo, tão confortável. Talvez, confortável porque eu já conhecia todo um repertório de certezas e respostas. Certezas e respostas prontas sobre o (possível) significado de um cumprimento. Afinal, é confortável confiar num suposto saber que julgamos já possuir acerca desse outro.

A nostalgia do tempo sem (com) máscaras

Em outras palavras, hoje, tenho a impressão de que falta informação. Aliás, falta um pedaço que, antes, me facilitava o laço. Mas que laço?

A pandemia cobriu, com a máscara, rostos antes, conhecidos. E, com isso, ela me arrancou da minha zona de conforto. Resultado: não tenho mais o conjunto de estímulos familiares para ver e interpretar.

Então, eu preciso me interessar mais pelo que o outro diz. Além disso, devo atentar como ele diz, de que forma diz. Desse modo, preciso ler a energia, trabalhar a sinergia, interpretar as entrelinhas. Tudo isso, exige mais cuidado. Cuidado para não limitar o outro. E nem reduzir a mensagem que ele traz sob o pano que cobre o seu rosto.

A escolha das máscaras com ou sem pandemia

Talvez, ao cobrirmos nossos rostos, apenas externamos as máscaras que já usávamos. E, com elas, nos escondíamos uns dos outros.

Máscaras que nos foram historicamente esculpidas, ensinadas, impostas, exigidas e cobradas. Máscaras que funcionam como senhas de entrada. Que estipulam possibilidades, permanências, exclusões e ausências. Máscaras já absorvidas por nossos rostos. Acabam sendo corpo e o jeito de nos fazer pessoa social. Mas que nunca conseguiram esconder o desconforto de conter toda a nossa potência humana.

Tempo de nostalgia

O dicionário nos fala que nostalgia é uma palavra que tenta expressar um sentimento, uma sensação de saudade idealizada e, às vezes irreal, por experiências vividas no passado. Ela nos fala de um desejo de regresso.

Acaso, essa nostalgia seria de um tempo sem máscaras em que nos reconhecíamos em nossa completude? Uma completude, hoje, escondida pelo pano? Ou a nostalgia é de um tempo no qual não usávamos máscaras? E fingíamos reconhecer uns aos outros, sem devido cuidado?

Desconforto descoberto

As máscaras da pandemia deixam para mim, o desconforto da maquiagem que fingíamos não existir. Daquilo que não queríamos ver. Entretanto, agora, atrás delas, fica mais difícil marcar diferenças. Ou assumir similaridades e regularidades. Afinal, todo olhar é uma janela para a alma. E a alma não cabe no corpo.

O que sua máscara, atual, esconde e revela?

Márcio Boaventura fala sobre Pandemia e a nostalgia de um tempo sem (com) máscaras

Márcio Boaventura Jr. é doutor pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFMG. Pedagogo e advogado. Facilitador certificado de Constelação Sistêmica Familiar pelo Hellinger Landshut da Alemanha. Trabalha como consultor para desenvolvimento de pessoas em diversas organizações. Atua, também, como professor associado da Fundação Dom Cabral, além de ser professor efetivo dos anos iniciais pela Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Etelvina Fonseca Cambraia
Etelvina Fonseca Cambraia
8 dias atrás

Muito bom esse artigo, me colocou pra pensar, isso é filosofar.

Dora Amaral
Dora Amaral
8 dias atrás

Como sempre, certeiro na reflexão e nas palavras. Vai dar pano pra manga esse texto, ao deitar a cabeça no travesseiro. Parabéns pelo texto e já aguardo o próximo!!!

RODRIGO LARA RESENDE
RODRIGO LARA RESENDE
8 dias atrás

Reflexão muito interessante. Sempre fui de olhar fundo nos olhos das pessoas, o que, por vezes, gerava um certo desconforto nelas, quase nunca em mim…kkk. Nunca o fiz de caso pensado. Talvez venha mais de uma ânsia de ver além das aparências e de me aproximar mais da almas. Ver além das máscaras. Elas me trouxeram o conforto de fazer isso sem qualquer pudor porque sinto que, por detrás delas, as pessoas ficam mais a vontade quando as olho assim. Tem também o lado prático delas esconderem a minha barba mal feita quando estou com preguiça de apará-la e as minhas caras e bocas (especialmente as bocas rs) diante de determinadas pessoas e situações…rs
E, paradoxamente falando, eu creio que elas revelam um pouco mais da minha essência quando preciso me esforçar um pouco mais para compreender e ser compreendido, como você menciona nesse artigo.

marcos andré gonçalves oliveira
marcos andré gonçalves oliveira
7 dias atrás

Eu também tive essa dificuldade. Excelente abordagem.

Ruan Soares
Ruan Soares
7 dias atrás

Tocou na ferida! Seria a confirmação de que “os olhos são a janela da alma”? E quem está disposto a abrir suas janelas?

PAULO CESAR PEGAS FERREIRA
PAULO CESAR PEGAS FERREIRA
7 dias atrás

Excelente análise e uma abordagem cirúrgica como lhe é peculiar.
Parabéns Márcio excelente, como sempre.