Na adolescência há sofrimento genuíno com muitas perguntas, nenhuma resposta; muitas pessoas, nenhuma amiga; muitos ambientes, nenhuma adaptação. Toda vez que um adulto ouvia minhas impressões, a resposta lacônica era a mesma, a mesmíssima: “É a fase!”. É? E daí? Como lidar com isso? O que é essa tal fase? Existe um script comum a todos? Não há nada a fazer, a modificar, a transformar? Comecei a pensar que a fase adulta era, então, a fase da acomodação — o famoso “deixe estar para ver como fica”.
Assim, a perspectiva de crescer não trazia um prognóstico melhor. O que eu via no mundo adulto não me agradava. Como resposta, passei a falar menos ainda, a ler e a estudar bem mais. Nos livros, encontrei o acesso ao mundo que as pessoas me negavam. De resto, resolvi vestir uma “roupa social” para conseguir um trânsito razoável pelos lugares que era obrigada a frequentar: família, escola, igreja.
Crescer e perceber o comportamento adulto
Cresci e descobri que os rótulos são, de fato, coisa da fase adulta, assim como os comportamentos aprendidos e nunca questionados. Toda vez que eu tentava usar uma “vestimenta” diferente, ouvia reprimendas: “Não seja prolixa”, “Não se questione tanto”, “Você pensa demais”, “Cita exemplos demais”. Por que só comigo? Sentia-me como uma música fora do ritmo, cujo compasso incomodava a todos. Um dia, descobri que não era a única. Descobri que as pessoas são diferentes — e que algumas são ainda mais diferentes que outras.
A regra social é cruel e fase de “Tô de saco cheio” também
Mas a regra social é cruel: se você for apenas um pouco diferente, o mundo tolera; afinal, pessoas assim são mais fáceis de dobrar e enquadrar no ritmo imposto. Entretanto, o problema real são os diferentes demais. Esses são sumariamente deixados de lado e, claro, rotulados: retardado, excepcional, estranho, ruim das ideias, louco, especial (para tentar tornar menos ruim o que não é bom), até chegarmos aos PcDs – pessoas com deficiência.
Foi nessa engrenagem de rótulos que passei a vida tentando me decifrar, habitando o paradoxo da dupla excepcionalidade: a intensidade das altas habilidades combinada à singularidade do autismo. Duas condições que a sociedade insiste em ler como opostas, mas que em mim sempre coexistiram, cobrando o preço de um esforço invisível, hercúleo e contínuo para mimetizar uma normalidade que não é minha.
O rótulo da vez (tô mesmo de saco cheio)

Dessa forma, hoje as pessoas com deficiência e, muitas vezes, neurodivergentes — graças a uma intensa pressão que se fez coletiva na transformou Lei — conquistaram o direito de: serem aceitas, integradas, socializadas, educadas e se tratarem. Tudo aquilo que o papel aceita e que o ser humano, quando quer, subverte.
Então, é por isso que agora, toda vez que sou obrigada a me conter, a podar minha intensidade, a camuflar minhas características ou a tentar me comunicar de uma forma que não seja a minha — apenas para poupar o conforto do outro —, eu constato: cheguei à fase do “tô de saco cheio”.
Mas há quem diga que não posso. Não posso? Como assim? Não se trata de tolerar uma mordaça pela primeira vez; trata-se de aguentar uma vida inteira de contenção. Faço parte do grupo 60+. Ainda assim, insistem em me aconselhar: “Abstraia. Não fica assim”. Pois eu respondo: fico sim. Afinal, não existe o “desfica”, o “desficar”. O que existe é: aprenda, conheça, acolha. Você já pensou nisso?

Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I e Boas de Conversa, escritora e radialista. É também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Em 2019, recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. É mentora para uma comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
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