A Cinderela (1997): Brandy transforma o clássico em um conto de fadas inesquecível - O Mundo Autista
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A Cinderela (1997): Brandy transforma o clássico em um conto de fadas inesquecível

A Cinderela trouxe a primeira princesa negra da Disney. Esta é uma das melhores versões do conto de fadas. Veja a crítica de Sophia Mendonça.

A Cinderela trouxe a primeira princesa negra da Disney. Esta é uma das melhores versões do conto de fadas. Veja a crítica de Sophia Mendonça.

A Cinderela trouxe a primeira princesa negra da Disney. Esta é uma das melhores versões do conto de fadas. Veja a crítica de Sophia Mendonça.

Há muito tempo quero escrever sobre A Cinderela (Rodgers & Hammerstein’s Cinderella, 1997). O motivo é bastante pessoal: esta é a minha segunda versão favorita do conto de fadas. Ela fica atrás apenas de Para Sempre Cinderela (1998). E isso não é pouca coisa. A história da gata borralheira é um dos meus maiores hiperfocos desde a infância. Portanto, passei boa parte da vida procurando, assistindo e comparando as mais diferentes releituras da narrativa eternizada por Charles Perrault. Algumas tentam modernizar Cinderela, outras investem no romance, há aquelas que preferem desconstruir completamente a história. Poucas, entretanto, conseguem fazer o que este telefilme de 1997 faz tão bem: respeitar profundamente o encanto tradicional do conto de fadas e, ao mesmo tempo, permitir que ele dialogue com um mundo muito mais diverso.

Brandy é maravilhosa no papel principal. Sua Cinderela tem a doçura e o romantismo que esperamos da personagem, mas não se resume à imagem de uma jovem que permanece sentada esperando que alguém apareça para salvá-la. Há nela uma inquietação, uma vontade de conhecer outras possibilidades de vida e, principalmente, uma capacidade de sonhar que ultrapassa o desejo de encontrar um príncipe. A escalação da cantora também fez história pela representação de uma Cinderela negra em uma grande produção da Disney. Décadas depois, a força dessa versão tornou-se ainda mais evidente: Brandy voltaria a interpretar a personagem em Descendentes: A Ascensão de Copas, lançado em 2024, ao lado de Paolo Montalban, que novamente vive seu Príncipe Encantado.

Brandy encontra a Cinderela perfeita para o musical de Rodgers e Hammerstein

Logo no começo de A Cinderela, encontramos Brandy caminhando pelas ruas enquanto canta “The Sweetest Sounds”. É uma apresentação simples, mas que diz muito sobre a personagem e sobre o espírito do filme. Seu olhar sonhador combina perfeitamente com o controle musical da cantora. E aquela Cinderela parece observar o mundo ao seu redor imaginando tudo aquilo que poderia existir além dos limites que lhe foram impostos. O trabalho de Brandy está nos pequenos gestos, na expressão curiosa e na forma como as canções revelam aquilo que a personagem talvez não conseguisse verbalizar de outra maneira.

O material de Rodgers e Hammerstein já tinha uma longa história na televisão antes dessa versão. O musical foi originalmente apresentado em 1957, com Julie Andrews como protagonista. Além disso, ele ganhou outra adaptação televisiva em 1965, estrelada por Lesley Ann Warren. A versão de 1997, portanto, não estava apenas adaptando o conto de Perrault, mas dialogando com uma tradição específica de Cinderela dentro do teatro musical norte-americano. Talvez por isso o filme tenha uma aparência tão deliciosamente clássica. Há algo nele que parece pertencer simultaneamente aos anos 1990 e à velha Hollywood. Afinal, os cenários coloridos, os figurinos exuberantes, os diálogos ligeiramente teatrais e as grandes performances musicais constroem um universo que nunca demonstra vergonha de ser um conto de fadas.

E isso me encanta particularmente porque muitas releituras contemporâneas parecem acreditar que atualizar uma princesa exige ironizar tudo aquilo que tornou essas histórias fascinantes em primeiro lugar. A Cinderela segue pelo caminho oposto. Ela pode modificar aspectos importantes da narrativa, conceder maior autonomia à protagonista e apostar em um elenco multicultural sem precisar ridicularizar o baile, a fada madrinha, o sapatinho de cristal ou o amor à primeira vista. O filme entende que tradição e transformação não precisam ser inimigas.

Um elenco multirracial sem transformar diversidade em explicação

Um dos elementos mais interessantes do longa é justamente a naturalidade com que seu universo multicultural é apresentado. Whoopi Goldberg e Victor Garber interpretam os pais do príncipe vivido pelo filipino-americano Paolo Montalban, enquanto Brandy é filha de uma família formada por uma madrasta branca e duas irmãs que também não precisam obedecer a qualquer lógica racial realista. O filme simplesmente constrói aquele reino como um lugar em que essas combinações são possíveis e não interrompe a fantasia para justificá-las. Para uma produção familiar exibida na televisão norte-americana em 1997, a escolha tinha uma força particular.

Mas talvez o aspecto mais inteligente seja perceber que essa consciência social não exige que o filme abandone sua identidade profundamente romântica. Robert Iscove dirige tudo com uma roupagem quase deliberadamente tradicional. O reino continua exuberante, o príncipe continua encantador, a carruagem continua mágica e o baile continua sendo apresentado como um acontecimento capaz de alterar uma vida inteira. Dessa maneira, A Cinderela encontra uma combinação que poucas versões posteriores conseguiram reproduzir com a mesma naturalidade: é progressista sem se transformar em manifesto e clássico sem parecer preso ao passado.

Essa combinação também aparece na própria Cinderela. Ela continua gentil, sonhadora e romântica, características que durante algum tempo passaram a ser tratadas quase como defeitos em determinadas releituras de princesas. O filme, porém, não parece acreditar que uma mulher precisa abandonar sua delicadeza para demonstrar força. O que muda é que essa protagonista expressa seus desejos com mais clareza. Ela quer sair, conhecer pessoas, encontrar seu lugar no mundo e experimentar alguma coisa diferente da rotina humilhante que lhe foi destinada. O romance surge dentro dessa busca, não como o único elemento capaz de justificá-la.

Bernadette Peters cria uma madrasta deliciosamente detestável

E então chegamos a Bernadette Peters, provavelmente uma das melhores escolhas de elenco de toda a produção. Uma das grandes atrizes do teatro musical norte-americano, Peters entende que a madrasta de Cinderela precisa ocupar um lugar delicado dentro da história. Se for assustadora demais, pode quebrar o tom leve do filme; se for puramente cômica, deixa de representar uma ameaça. Sua interpretação encontra justamente o ponto intermediário. Ela é vaidosa, afetada, egoísta, cruel e absolutamente divertida de assistir.

O mais interessante é que Peters não transforma a personagem em uma caricatura vazia. Mesmo nos momentos mais exagerados, existe alguma sugestão de frustração naquela mulher. Sua maneira de enxergar o casamento, o amor e a posição social explica parcialmente a educação que oferece às próprias filhas e sua incapacidade de compreender Cinderela. Não significa que o filme tente desculpar seu comportamento — e nem deveria. A madrasta permanece detestável. Mas é uma vilã com personalidade, presença e um senso de humor que faz com que praticamente todas as suas aparições tenham alguma graça.

Isso culmina lindamente em “Falling in Love with Love”, número musical que poderia praticamente funcionar como a declaração de princípios da personagem. É uma daquelas situações em que a escolha da música não serve apenas para interromper a narrativa com uma performance bonita. Ela revela como aquela mulher passou a compreender o amor, expondo um cinismo que contrasta diretamente com a esperança quase radical de Cinderela. Peters canta, atua e ironiza ao mesmo tempo, fazendo da sequência uma das melhores do filme.

Whitney Houston é uma Fada Madrinha feita de puro espetáculo

Whitney Houston segue por um caminho completamente diferente. Como atriz, sua composição é menos detalhista que as de Brandy e Bernadette Peters, mas isso praticamente deixa de importar no momento em que ela assume plenamente aquilo que sua Fada Madrinha precisa representar: encantamento. Houston não entra em cena para ser uma figura discreta. Ela aparece como uma força da natureza, carregando consigo a sensação de que, durante alguns minutos, qualquer coisa realmente pode acontecer.

Sua presença também tem uma história especial dentro do projeto, já que Houston não apenas interpreta a Fada Madrinha como participa da produção do telefilme. E talvez poucas pessoas pudessem cantar “Impossible” de maneira tão apropriada. É justamente uma canção sobre recusar os limites aparentemente óbvios da realidade, interpretada por uma artista cuja voz parece ignorar qualquer ideia de limite. O resultado é uma sequência alegre, grandiosa e sem medo do excesso. É magia de conto de fadas no sentido mais literal possível.

O mesmo acontece com “There’s Music in You”, especialmente porque Whitney transforma uma canção já emocional em algo próximo de uma celebração. Sua Fada Madrinha não está ali apenas para providenciar vestido, carruagem e sapatinhos. Ela tenta fazer Cinderela perceber uma possibilidade que já existia dentro dela. Isso ajuda a versão de 1997 a escapar um pouco da ideia de que a transformação da protagonista acontece porque alguém finalmente decidiu torná-la bonita. A magia exterior continua existindo — afinal, estamos falando de Cinderela —, mas funciona principalmente como impulso para uma mudança interior.

Paolo Montalban faz do príncipe mais do que um prêmio no fim da história

Paolo Montalban, por sua vez, oferece exatamente o tipo de príncipe que esse universo pede. Há algo deliberadamente antiquado em seu charme e até em sua maneira de cantar, mas nunca no sentido negativo. Pelo contrário: sua interpretação parece saída daqueles grandes musicais cinematográficos em que bastava uma troca de olhares e alguns versos para acreditarmos que duas pessoas poderiam se apaixonar imediatamente.

A química entre Montalban e Brandy é fundamental para que isso funcione. O romance poderia facilmente cair naquela estrutura tradicional em que o príncipe é pouco mais do que uma recompensa destinada à heroína depois de todo o sofrimento. Aqui, porém, os dois parecem compartilhar a mesma insatisfação. Cinderela se sente aprisionada pela vida doméstica; ele, pelas expectativas da realeza e pela pressão para encontrar uma esposa. Antes de serem princesa e príncipe, são duas pessoas tentando escapar dos papéis que outras pessoas escolheram para elas.

É exatamente por isso que “Do I Love You Because You’re Beautiful?” funciona tão bem. A música coloca em palavras uma pergunta central a qualquer conto de fadas baseado em amor à primeira vista: aquela pessoa é extraordinária porque estamos apaixonados ou nos apaixonamos porque ela é extraordinária? O filme não precisa encontrar uma resposta muito sofisticada. Basta observar Brandy e Montalban dividindo a cena para aceitar a lógica romântica daquele universo.

Whoopi Goldberg, Victor Garber e Jason Alexander entendem o humor do filme

Também é impossível falar do elenco sem mencionar Whoopi Goldberg e Victor Garber como os pais do príncipe. Os dois compreendem perfeitamente o tom da produção e aproveitam cada oportunidade de humor sem transformar seus personagens em figuras completamente desconectadas da narrativa. Eles são engraçados porque são pais tentando controlar a vida amorosa do filho dentro das regras absurdamente formais de um reino de conto de fadas.

Jason Alexander, eternamente lembrado por Seinfeld, também se diverte muito como Lionel. O personagem poderia existir apenas como um alívio cômico, mas o roteiro consegue utilizá-lo como uma espécie de ponte entre o príncipe e seus pais. Seu humor nasce tanto das situações quanto da personalidade, e isso faz diferença. Em vez de termos pequenas esquetes interrompendo o romance principal, as cenas cômicas continuam movimentando a história.

Esse é, aliás, um dos grandes méritos do filme: praticamente todo o elenco parece entender exatamente em que produção está. Ninguém tenta tornar Cinderela mais séria do que precisa ser, mas ninguém trata aquele universo com desprezo. Existe uma diferença enorme entre brincar dentro de um conto de fadas e fazer piada com o fato de ele ser um conto de fadas. O filme escolhe a primeira opção.

“In My Own Little Corner” mostra por que esta Cinderela permanece tão especial

E, depois de tantos elogios, ainda nem falei de algumas das minhas sequências favoritas: “In My Own Little Corner” e “Ten Minutes Ago”. Se eu precisasse explicar por que gosto tanto desta adaptação apenas por meio de três momentos, provavelmente escolheria justamente esses.

“In My Own Little Corner” talvez seja aquele que melhor traduz a personagem de Brandy. Cinderela pode estar confinada a um espaço pequeno, mas sua imaginação é gigantesca. Dentro daquele canto aparentemente insignificante, ela pode viajar, viver outras vidas e imaginar possibilidades que ninguém ao seu redor consegue enxergar. Para alguém que cresceu hiperfocada nessa personagem, sempre achei particularmente bonito perceber que sua principal característica não precisava ser apenas a bondade. Ela também podia ser uma menina imaginativa.

Já “Ten Minutes Ago” é puro romance. E digo isso como elogio. Não existe ali necessidade alguma de pedir desculpas pelo sentimentalismo, inserir uma piada para quebrar a emoção ou fingir que acreditar naquele encontro é ingenuidade. Durante aqueles minutos, o filme simplesmente nos convida a acreditar que duas pessoas podem se reconhecer em meio a um baile lotado e sentir que todo o restante do salão desapareceu.

Talvez essa sinceridade seja justamente aquilo que mais me conquista.

Por que A Cinderela de 1997 continua encantadora?

Existem adaptações mais sofisticadas de Cinderela, outras mais realistas, algumas mais engraçadas e várias tecnicamente mais grandiosas. Mas poucas me parecem compreender tão bem aquilo que torna essa história irresistível. A versão de 1997 não tenta destruir o conto de fadas para reconstruí-lo segundo sensibilidades contemporâneas. Ela olha para seus elementos mais conhecidos — a menina maltratada, o baile, o príncipe, a transformação, o sapatinho — e pergunta como poderia fazer com que mais pessoas se enxergassem dentro deles.

O resultado é um filme que consegue ser nostálgico e moderno ao mesmo tempo. Sua diversidade tornou-se uma das características mais lembradas da produção, mas ela nunca aparece isolada daquilo que realmente sustenta a obra: um elenco excelente, números musicais memoráveis, humor, romance e uma protagonista que faz parecer natural acreditar novamente em magia.

Veredito

Talvez seja exatamente por isso que, mesmo depois de assistir a tantas versões da história ao longo da vida, continuo colocando A Cinderela de 1997 tão perto do topo da minha lista. Brandy é uma Cinderela luminosa, Bernadette Peters entrega uma madrasta maravilhosa, Whitney Houston transforma a Fada Madrinha em espetáculo e Paolo Montalban oferece ao romance o charme de um musical de outra época.

No fim das contas, é Cinderela em sua melhor forma: romântica, musical, colorida, divertida, inclusiva e completamente apaixonada pela possibilidade de que, de vez em quando, aquilo que parece impossível possa realmente acontecer.

Avaliação: 10/10

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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