Conheça a trajetória e 7 livros imperdíveis da escritora Sophia Mendonça, jornalista e voz pioneira sobre autismo e neurodiversidade no Brasil.
Aliás, Sophia Mendonça é uma jornalista, escritora e pesquisadora acadêmica brasileira. E é reconhecida pelo seu trabalho pioneiro na intersecção entre neurodiversidade, comunicação e estudos de gênero. Além disso, é uma voz ativa e proeminente sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil.Ela é co-criadora do premiado portal e canal de YouTube O Mundo Autista. Este é, aliás, um dos principais veículos de comunicação do país dedicados à neurodivergência. E é o projeto que conduz ao lado de sua mãe e parceira profissional, a também jornalista e autista Selma Sueli Silva.
Os 7 livros imperdíveis da escritora Sophia Mendonça
Com uma vasta e plural produção literária que transita entre a não ficção, a investigação jornalística, a fantasia infanto-juvenil e a comédia romântica, Mendonça possui dezenas de títulos publicados. Além disso, ela fez história ao se tornar a primeira mulher autista e transgênero a defender uma dissertação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Atualmente, é doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Também, a atuação intelectual e artística já lhe rendeu condecorações expressivas. Isso inclui ter se tornado, em 2016, a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito Legislativo Municipal de Belo Horizonte. Além disso, foi laureada com o Erasmus+ Best Practices Award na Europa em 2019. Seguem, portanto, sete livros imperdíveis da escritora Sophia Mendonça:
1. Outro Olhar: Reflexões de um Autista (2015)
Outro Olhar: Reflexões de um Autista é o livro de estreia de Sophia Mendonça. Publicado originalmente em 19 de novembro de 2015, pela Manduruvá Edições Especiais, a obra de 68 páginas enquadra-se nas categorias de autobiografia, ensaio e memórias. Dessa forma, o livro traz um relato em primeira pessoa sobre as vivências da autora. Assim, oferece reflexões críticas sobre inclusão, afeto familiar, barreiras sociais e os desafios do cotidiano em um mundo desenhado para pessoas neurotípicas.
Sophia foi diagnosticada com Síndrome de Asperger aos 11 anos de idade, mas tomou conhecimento de sua condição de forma integral apenas aos 13, por meio de sua mãe, a também jornalista Selma Sueli Silva, também diagnosticada como autista.
Durante a adolescência, a autora lidou com profissionais da saúde que adotavam posturas conservadoras em relação à neurodivergência. E tratavam o autismo como uma falha a ser “consertada” para que a paciente coubesse nos moldes de socialização esperados. Incomodada com a pressão para mascarar seus traços autistas, prática conhecida como masking, e com a severa escassez de materiais escritos e protagonizados pelas próprias pessoas no espectro no Brasil, Sophia sentiu a urgência de quebrar os tabus que cercavam o tema. Assim, o desejo de ser compreendida pela sua singularidade e de criar uma ponte de empatia que ajudasse a sociedade a entender o funcionamento de sua mente impulsionaram o desenvolvimento do projeto do livro.
Outro Olhar e os 7 livros imperdíveis da escritora Sophia Mendonça
O processo de escrita de Outro Olhar ocorreu de forma intensa ao longo de seis meses. Neste período, a autora tinha 18 anos e cursava o primeiro ano da faculdade de Jornalismo. Mendonça, aliás, relatou que esse tempo foi essencial para a profunda auto-observação do cotidiano e para o resgate de memórias da infância e adolescência. O processo criativo, com isso, permitiu-lhe dissecar e traduzir em texto como o autismo alterava a percepção de situações de interação social que, para a maioria das pessoas, soavam como banais.
Ela construiu a obra com uma prosa que mescla o ensaio contemplativo ao relato íntimo. Além disso, umelemento de forte influência durante o processo de escrita foi o estudo e a prática da filosofia budista pela autora, através da Soka Gakkai Internacional. Afinal, o budismo ofereceu o arcabouço para a busca por autoconhecimento, resiliência e equilíbrio dos conflitos internos frente às crises de ansiedade e fobias sociais. Dessa forma, o livro foi estruturado para ir além do desabafo puramente pessoal. Isso porque ele assumiu também a forma de guia com dicas práticas sobre como aprimorar a comunicação, lidar com o hiperfoco e fortalecer os laços afetivos com indivíduos autistas.
Outro Olhar, da escritora Sophia Mendonça
Outro Olhar obteve uma excelente resposta comercial e de crítica dentro do nicho literário sobre neurodivergência, inclusão e educação no Brasil. Isso porque, logo após o seu lançamento, a obra destacou-se ao ter sua primeira tiragem esgotada em apenas dois dias. Este, aliás, foi um feito notável para uma publicação independente de uma autora estreante na época.
Além disso, a recepção solidificou o livro como uma leitura de referência para pais, educadores e profissionais de saúde na compreensão do Transtorno do Espectro Autista a partir de um “olhar de dentro”. Resenhas e artigos acadêmicos celebraram a capacidade da autora de articular o desconforto e os entraves da socialização neuroatípica com extrema maturidade. Também, a obra foi amplamente elogiada pela sinceridade narrativa e pela importância do seu protagonismo em dar voz ativa à pessoa autista, desconstruindo o estigma de que autistas não possuem interesse na socialização e mostrando, na verdade, o altíssimo esforço mental exigido na tentativa de pertencer à sociedade. O impacto do livro também catalisou a carreira jornalística da autora e abriu portas para a criação do premiado canal e site O Mundo Autista.
2. Danielle, Asperger (2016)
Danielle, Asperger é um romance juvenil de Sophia Mendonça. Publicado originalmente em 29 de setembro de 2016 pela Manduruvá Edições Especiais, o livro insere-se no gênero literário chick-lit. Ele acompanha a trajetória de Danielle. Aliás, ela é uma adolescente autista que lida com os conflitos típicos da juventude somados aos desafios e vulnerabilidades da neurodivergência. E, por meio de um tom que mescla bom humor e uma ironia afiada, a narrativa explora os obstáculos cotidianos da protagonista, as crises de ansiedade, paixões peculiares e a busca por aceitação.
Dessa forma, a concepção da obra carrega um forte componente emocional intimamente ligado à juventude da própria autora. Sophia Mendonça escreveu os primeiros rascunhos da história de Danielle, Asperger quando tinha apenas 14 anos de idade. No entanto, durante um momento de severa crise pessoal e insegurança, a autora decidiu se desfazer do manuscrito original. Afinal, ela julgava que o texto não deveria vir a público.
A obra só sobreviveu e chegou às prateleiras anos mais tarde graças à intervenção direta de Selma Sueli Silva. Acreditando no potencial da narrativa e na importância de dar voz aos dilemas de meninas no espectro, Selma salvou os textos originais em segredo. Então, ela guardou o material até que a filha mudasse de ideia e se sentisse madura o suficiente para retomar o projeto literário, editá-lo e, finalmente, publicá-lo em 2016.
A protagonista de Danielle, Asperger, da escritora Sophia Mendonça
Dessa forma, a escrita de Danielle, Asperger utiliza a ficção juvenil para traduzir, de maneira acessível, experiências reais e frequentemente invisibilizadas de mulheres autistas. Um dos temas centrais abordados na prosa, por exemplo, é o masking (ou camuflagem social). Este é o exaustivo esforço empregado por pessoas neurodivergentes para disfarçar traços autistas e mimetizar comportamentos a fim de se adequarem a ambientes neurotípicos.
Mendonça ilustra esse esgotamento mental por meio das vivências da protagonista, que utiliza seu interesse profundo por dramaturgia como um mecanismo de sobrevivência social. Em trechos marcantes do romance, portanto, Danielle relata o estresse de tentar “parecer normal” e revela que baseia suas reações e formas de agir em atuações da sua atriz favorita, Sabrina. Assim, ela copia as personagens para saber como se portar em público. Então, com uma protagonista apaixonada por vilões de novela e imersa em dilemas familiares e de identidade, a trama critica a pressão por normatividade sem perder a leveza característica dos romances juvenis.
A ficção Danielle, Asperger, da escritora Sophia Mendonça
A recepção de Danielle, Asperger consolidou o livro como uma leitura tida como essencial na literatura sobre neurodiversidade no Brasil. Assim, a obra foi calorosamente recebida pelo público por subverter arquétipos clínicos e frios comumente associados ao autismo. E apresentou uma protagonista que transcende rótulos diagnósticos para se revelar falha, engraçada, ácida e profundamente humana.
A crítica especializada e os leitores, por meio de resenhas em plataformas literárias e podcasts (como o Escritores em Cena), destacaram a sensibilidade de Mendonça em retratar a jornada de amadurecimento e as dinâmicas familiares. O livro, então, foi amplamente elogiado por oferecer uma visão íntima que inspira empatia. E por permitir que jovens autistas se sentissem genuinamente representadas na literatura nacional de ficção. Ao mesmo tempo, Danielle, Asperger convida o público geral a refletir sobre a importância de abraçar as próprias particularidades sem o medo de ser quem realmente se é.
3. Neurodivergentes: Autismo na Contemporaneidade (2019)
Neurodivergentes: Autismo na Contemporaneidade é um livro-reportagem de Sophia Mendonça. Publicada em 2019 pela Manduruvá Edições Especiais, a obra marcou um ponto de virada na bibliografia da autora. Isso porque ela transitou dos relatos puramente autobiográficos para uma investigação jornalística e acadêmica. Com isso, o livro argumenta contra a patologização do Transtorno do Espectro Autista (TEA). E defende-o não como uma doença a ser curada, mas como uma variação natural da conectividade cerebral humana.
O desenvolvimento de Neurodivergentes nasceu como fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Sophia Mendonça na faculdade de Jornalismo. É que, após publicar obras centradas em vivência pessoal, a autora sentiu a necessidade de ampliar o escopo da discussão e investigar como outras pessoas com cérebros atípicos compreendiam a si mesmas e ao mundo. A escolha do título, portanto, refletiu exatamente essa busca pela identidade coletiva.
Um fator pessoal de forte influência para o projeto foi o diagnóstico tardio da mãe, a também jornalista Selma Sueli Silva, que descobriu estar no espectro autista já na vida adulta. Acompanhar as dificuldades enfrentadas pela mãe na busca por respostas despertou em Sophia um profundo interesse em investigar o subdiagnóstico feminino e as barreiras históricas que invisibilizaram as mulheres autistas por décadas.
Os capítulos de Neurodivergentes, da escritora Sophia Mendonça (2019)
Classificado como um livro-reportagem com embasamento acadêmico, o texto cruza a apuração jornalística, entrevistas reais e revisão bibliográfica. O livro foi estruturado em três capítulos temáticos centrais:
- Inteligência e Neurodiversidade: O primeiro capítulo desmistifica a ideia de que o cérebro autista é deficitário. E Mendonça explora como a inteligência, a imaginação e a empatia funcionam na neurodivergência. Assim, ela argumenta que a cognição autista não é necessariamente inferior à neurotípica, mas acaba sendo altamente desafiada por sobrecargas e estímulos sensoriais.
- Autismo no Feminino: Este segmento realiza um resgate histórico e jornalístico para explicar o apagamento das mulheres no espectro. Dessa forma, a autora aborda como fatores culturais e o fenômeno do masking, a exaustiva camuflagem social e cópia de comportamentos neurotípicos esperados de meninas e mulheres, dificultam diagnósticos e causam severos prejuízos à saúde mental feminina.
- Meios de Comunicação: A terceira e última parte foca na representação midiática. E analisa como o autismo chega ao grande público por meio de séries, filmes e noticiários. Com isso, Sophia debate de forma crítica o distanciamento entre as narrativas criadas pela mídia e a realidade vivida pelas pessoas neurodivergentes. E ressalta a urgência de se colocar em prática o lema “Nada sobre nós, sem nós”.
Neurodivergentes obteve forte reconhecimento acadêmico e de público. Além disso, ele foi apontado por pesquisadoras como Luana Adriano e Valéria Aydos como o primeiro livro focado na temática conceitual da neurodiversidade a ser publicado no Brasil.
Neurodivergentes, da escritora Sophia Mendonça
A obra também recebeu elogios elogiada por conseguir traduzir conceitos sociológicos densos para uma linguagem jornalística fluida e acessível. Além disso, leitores destacaram a importância do capítulo sobre o autismo feminino, que trouxe validação para muitas mulheres atípicas não diagnosticadas. O jornalista e professor Maurício Guilherme Silva Jr., definiu o texto como uma manifestação essencial. E afirmou que nele o leitor encontra “a voz de uma das mais lúcidas ativistas da atualidade”. O impacto do livro, aliás, ajudou a consolidar o nome de Sophia Mendonça como uma referência brasileira no estudo das neurodivergências na contemporaneidade.
4. Entre Fadas e Bruxos (2019)
Entre Fadas e Bruxos é um livro de fantasia de Sophia Mendonça, publicado originalmente em 24 de agosto de 2019, pela editora RM Books. Por meio de um enredo lúdico e mágico que divide um reino encantado, a narrativa utiliza os tropos dos contos de fadas clássicos para propor uma metáfora profunda e acessível sobre diversidade, identidade, autoaceitação e a convivência com o diferente na sociedade contemporânea.
A concepção de Entre Fadas e Bruxos tem raízes na relação afetiva que a autora estabeleceu com a literatura fantástica desde a infância. É que, leitora voraz, Mendonça cresceu imersa no universo de clássicos como Cinderela e narrativas infanto-juvenis brasileiras permeadas por humor e mistério, a exemplo de O Fantástico Mistério de Feiurinha e a série Bruxa Onilda. O fascínio por personagens femininas fortes em cenários de magia foi, portanto, um motor criativo essencial.
Com o passar dos anos, essa bagagem de leituras infantis mesclou-se à paixão adolescente por romances do gênero chick-lit e séries juvenis, como Becky Bloom e A Mediadora. O projeto literário nasceu, portanto, do desejo de unir a leveza e a capacidade de entretenimento dessas obras a um propósito crítico. E Mendonça buscou criar um universo seguro e encantador onde as novas gerações pudessem refletir sobre pluralidade e respeito.
A trama de Entre Fadas e Bruxos, da escritora Sophia Mendonça
O universo de Entre Fadas e Bruxos é construído sobre uma dicotomia que, ao longo do texto, revela-se cheia de nuances. Assim, o reino é dividido entre as fadas, descritas como seres dóceis que se alimentam de sentimentos como pureza, bondade e amor, e os bruxos, que aqui são criaturas mais frias, cruéis em suas palavras e não acreditam na existência genuína de tais emoções.
O conflito central que costura o livro baseia-se em Annabeth, a grande rainha das fadas. E, para manter a paz no reino, ela estabelece uma frágil aliança com o rei dos bruxos, que promete ensinar magia luminosa a algumas bruxas em troca de concessões. Aliás, a trama ganha densidade emocional por meio de Cruello, filho de Annabeth. Afinal, ele sofre um agudo conflito de identidade por ser um bruxo. E, por meio do questionamento de Cruello e dos dilemas ocultos da própria rainha, que se pergunta se não haveria uma bruxa dentro de si mesma, Mendonça elabora alegorias nítidas sobre neurodivergência, diversidade de gênero e o apagamento de identidades.
A escrita de Sophia Mendonça também incorpora de maneira sutil princípios da filosofia budista. Isso fica evidente nos ritos de magia do livro e especialmente na habilidade das fadas de “transformar veneno em remédio”. Além disso, elas revertem maldições de invernos rigorosos em primaveras iluminadas.
O universo de Entre Fadas e Bruxos, da escritora Sophia Mendonça
A obra teve uma recepção calorosa entre leitores e educadores. Com isso, consolidou-se como um título encantador e emocionante dentro do nicho infanto-juvenil. Portanto, o retorno do público destacou a habilidade da autora em pegar temas que muitas vezes geram atritos e estigmas na realidade, como os preconceitos estruturais e os choques de identidade, e embalá-los em uma leitura divertida e fluida.
Entre Fadas e Bruxos recebeu elogios por oferecer uma lição prática sobre a quebra de binarismos e estereótipos. E ao defender que independentemente de se nascer “fada” ou “bruxo”, todos merecem coexistir. Assim, o sucesso afetivo da obra entre o público-alvo reverberou de maneira duradoura na carreira da autora. E motivou-a, anos mais tarde, a planejar a expansão deste universo literário com prólogo e novos contos, a exemplo de A fada mais sem graça de todas (2024).
5. Ikeda: Um Século de Humanismo (2020)
Ikeda: Um Século de Humanismo é um livro de cunho biográfico e ensaístico de Sophia Mendonça. Lançada em 6 de fevereiro de 2020, pela RM Books, a obra debruça-se sobre a trajetória intelectual, filosófica e pacifista do líder budista japonês Daisaku Ikeda (1928-2023). Dessa forma, o livro explora como os ideais de humanismo, educação e paz mundial defendidos por Ikeda dialogam com as demandas contemporâneas. Além disso, serve como um registro sensível e analítico sobre o legado do protagonista.
A concepção da obra nasceu do profundo fascínio que a autora nutria, desde a infância, pela figura de Daisaku Ikeda. È que, praticante do budismo de Nichiren Daishonin, Mendonça encontrou nos escritos do japonês respostas concretas e de sólida argumentação para diversas questões existenciais.
Na introdução da obra, aliás, a autora descreve-se como uma “ávida leitora em busca de conhecimento” que, ao longo do tempo, adotou Ikeda como uma referência filosófica e como um mestre de vida. Assim, a necessidade de sistematizar os pensamentos de vanguarda de Ikeda em uma linguagem que transcende os limites da comunidade budista e alcance o público brasileiro em geral foi o principal motor para a realização do projeto jornalístico-literário.
A biografia de Daisaku Ikeda pela escritora Sophia Mendonça
A escrita de Ikeda: Um Século de Humanismo afasta-se do formato de uma biografia cronológica tradicional para se concentrar na evolução e na aplicação do pensamento do biografado. Escrito quando a autora tinha apenas 23 anos, o livro é estruturado em seis capítulos que promovem um resgate da história do budismo de Nichiren em paralelo com a atuação de Daisaku Ikeda no cenário global.
Aliás, Mendonça estabelece pontes pertinentes entre o pensamento budista e a produção de grandes pensadores do Ocidente e do Oriente ao longo da história. A prosa, com isso, adota um tom ágil e reflexivo. Além disso, por meio do texto, a autora explora o conceito de “revolução humana”. Este é pilar central na filosofia de Ikeda, que defende a transformação interior do indivíduo como a única base sólida para a mudança social e para a construção de uma cultura genuína de paz fundamentada no diálogo constante.
Vera Golik destaca Ikeda, da escritora Sophia Mendonça
A recepção do livro foi bastante afetuosa, em especial entre os praticantes da filosofia humanista, educadores e leitores interessados na intersecção entre sociedade e cultura de paz. A também jornalista e escritora budista Vera Golik elogiou a capacidade analítica da autora. Golik destacou que Mendonça conseguiu elaborar uma síntese “rica, profunda e, ao mesmo tempo, deliciosa de ler” sobre temas complexos. E celebrou a obra pela linguagem clara, capaz de evidenciar a força e a atualidade do pensamento de Daisaku Ikeda. Com isso, o livro reafirmou o talento de Sophia Mendonça para traduzir ideais filosóficos densos de uma forma acolhedora para o público.
6. Metamorfoses: Autismo e Diversidade de Gênero (2022)
Metamorfoses: Autismo e Diversidade de Gênero é um livro de Sophia Mendonça. A primeira edição da obra foi publicada em 2022 pela Páginas Editora com uma segunda edição lançada no ano de 2025 pela Editora Dialética. O livro é fruto da dissertação de mestrado da autora no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O trabalho se destaca por explorar, sob uma perspectiva afetiva, as intersecções entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a transgeneridade.
As sementes de Metamorfoses estão profundamente ligadas às narrativas de vida da própria autora. Afinal, ela é uma mulher transexual redesignada e autista. O livro resgata memórias de Mendonça, como o episódio da primeira crise de taquicardia aos 14 anos. Foi quando ela conseguiu expressar à psicóloga o sentimento de se enxergar como “uma mulher presa em um corpo de homem”.
O amadurecimento intelectual que baseia a obra começou com Outro Olhar, quando Sophia, ainda estudante de Jornalismo, começou a escrever textos diários abordando a neurodiversidade e os desafios de uma juventude autista frequentemente incompreendida ou estigmatizada pela sociedade.
Metamorfoses e a dissertação pioneira da escritora Sophia Mendonça
A obra foi elaborada e defendida durante a pandemia de COVID-19, um desafio que privou a autora do contato presencial universitário. Entretanto, com este trabalho acadêmico, que daria origem ao livro, Sophia fez história ao se tornar a primeira pesquisadora mulher autista e trans a defender uma dissertação no PPGCOM da UFMG. E foi aprovada com louvor e recomendação para publicação.
Estruturalmente, Mendonça utilizou uma bricolagem metodológica e inspiração etnográfica para a construção textual. Ela articulou vivências pessoais referentes à redesignação sexual, afirmação de gênero e autismo. E cruzou-as com uma extensa análise de postagens públicas no Twitter feitas por outras pessoas autistas e transgênero. O texto investiga o fato de que a incongruência de gênero chega a ser 7.59 vezes mais comum em pessoas com autismo do que na população em geral. E aprofunda discussões acerca dos modelos médico e social da deficiência, capacitismo, transfobia. Além disso, aborda como traços autistas, a exemplo do hiperfoco e de questões sensoriais, influenciam e dialogam com as questões de gênero.
O livro acadêmico de memórias Metamorfoses, da escritora Sophia Mendonça
A recepção acadêmica e crítica de Metamorfoses sublinhou o ineditismo de uma autora autista e trans produzir conhecimento científico a respeito da própria comunidade.
A professora e pesquisadora Camila Mantovani observou o grande impacto político do texto pelo fato de Sophia Mendonça não se portar mais unicamente como um “objeto de estudo” sobre o qual terceiros falam, mas assumir o protagonismo da pesquisa. E desestabilizar o território da ciência tradicional.
Juarez Guimarães Dias salientou que a obra “faz História” e “faz Política” no ambiente acadêmico pela coragem em dar visibilidade a experiências de corpos invisibilizados por causa da ignorância estrutural. Para ele, Metamorfoses propõe reflexões valiosas em busca de um mundo mais potente, diverso e igualitário. A obra também foi aclamada por apontar caminhos mais acolhedores no trato das neurodivergências.
7. A Influenciadora e o Crítico (2025)
A Influenciadora e o Crítico é uma comédia romântica de Sophia Mendonça. Publicada de forma independente em 11 de junho de 2025 e com nova edição impressa a caminho, a obra marca o mergulho na literatura de ficção voltada para o gênero chick-lit. A narrativa utiliza os tropos literários enemies to lovers (de inimigos a amantes) e grumpy x sunshine para contar a história do embate entre uma carismática criadora de conteúdo e um crítico literário ranzinza.
O desejo de escrever uma comédia romântica acompanhava a autora desde a sua adolescência. Fortemente influenciada por grandes nomes do gênero, como Marian Keyes, Meg Cabot e, de forma muito especial, Sophie Kinsella, Sophia Mendonça nutria o sonho de produzir uma narrativa fundamentada no humor, na leveza e no conforto emocional.
O livro difere-se de grande parte de sua produção bibliográfica anterior, que, nas palavras da mãe e parceira criativa, Selma Sueli Silva, consistia em “pérolas” geradas a partir do processamento de vivências difíceis. A Influenciadora e o Crítico, por sua vez, nasceu de um lugar inédito na trajetória da autora: a pura felicidade. Ao lançar a obra aos 28 anos, Mendonça descreveu o processo como um símbolo do próprio “renascimento” após as dificuldades enfrentadas desde a descoberta do autismo na infância. Dessa forma, o livro materializa uma fase de ousadia e realização pessoal. E serve como homenagem à crença da autora de que, muitas vezes, são as histórias mais leves que nos salvam.
A trama e os personagens da comédia romântica A Influenciadora e o Crítico, da escritora Sophia Mendonça
A trama foca na colisão de dois mundos diametralmente opostos. De um lado, temos Lucy Martins, uma influenciadora literária ensolarada, autônoma e apaixonada por comfort books. Do outro, está Miguel Kruger, um crítico literário tradicionalista com formação em jornal impresso e dono de um temperamento bastante difícil. Quando um projeto inesperado obriga os dois a trabalharem juntos apresentando um canal no YouTube, o conflito entre o cânone literário e a literatura contemporânea de entretenimento cede espaço para uma atração inevitável.
Durante o processo de escrita, Mendonça explorou a dinâmica onde a figura otimista e empática (Lucy) transforma a vida do personagem cético (Miguel). Além disso, ela distribuiu traços da própria personalidade entre os dois protagonistas. Sendo uma crítica profissional de cinema e literatura na vida real, a autora emprestou a Miguel o próprio rigor analítico. Já Lucy reflete o lado mais feminino e a imensa paixão pela leitura. Paixão esta que funciona na narrativa como uma representação do hiperfoco autista e oferece uma camada de representatividade à personagem de forma muito fluida, sem que o diagnóstico se torne a única questão da história.
A comédia romântica A Influenciadora e o Crítico, da escritora Sophia Mendonça
A Influenciadora e o Crítico obteve uma excelente recepção do público. O livro foi celebrado como um marco muito bem-sucedido na nova fase da carreira literária de Sophia Mendonça. A obra conquistou avaliações positivas em plataformas como a Amazon e foi apontada como uma leitura rápida, cativante e apaixonante.
Os leitores elogiaram a escrita leve e bem-humorada da autora. Eles destacaram as implicâncias divertidas entre Lucy e Miguel, bem como o uso inteligente de referências ao meio literário e à cultura pop, que enriqueceram a ambientação do romance. Além disso, o público se identificou facilmente com o carisma da protagonista. E consolidou o livro como uma obra de conforto.
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