Quero compartilhar 10 vídeos do canal Mundo Autista sobre maternidade atípica neste dia das mães. Aliás, falar de maternidade no espectro autista é falar da minha própria história com a minha mãe, Selma Sueli Silva. Nossa relação é um exercício diário de tradução. Isso porque somos duas mulheres autistas tentando decifrar o mundo e, ao mesmo tempo, uma à outra. Entre diagnósticos tardios e crises de sobrecarga sensorial, aprendemos que o “maternar” é uma construção de coragem e esperança.
Neste Dia das Mães, decidi oferecer a vocês uma reportagem especial com 10 vídeos do nosso canal Mundo Autista que abordam a maternidade atípica. Eles são um mergulho sem filtros na nossa rotina. Isso quer dizer que tem desabafo sobre o sistema de saúde, estratégias práticas de convivência (quem nunca precisou de uma plaquinha de silêncio na porta?), reflexões sobre o “luto” do diagnóstico e a celebração da nossa autonomia.
Este foi o modo que encontrei de prestar uma homenagem a todas as mães típicas e atípicas que, assim como mamãe, escolheram acreditar quando ninguém mais acreditava. Então, desejo que este guia seja um abraço em forma de informação para que nenhuma família se sinta sozinha nesta jornada. Seguem, portanto, 10 vídeos do canal Mundo Autista sobre maternidade atípica neste dia das mães.
1. Autismo – Minha filha asperger adulta: Relatos desde a infância (10 de fevereiro de 2017)
Começamos com a Dona Irene, minha avó. É fundamental entender que a maternidade atípica existia mesmo antes dos nomes técnicos. Ela conta como criou minha mãe, Selma, em uma época sem diagnósticos, baseando-se apenas na intuição e no amor firme. É o ponto de partida perfeito para mostrar que o suporte familiar é o alicerce de tudo.
Neste episódio, Vovó Irene relembra a criação de mamãe. Com isso, ela destaca a vivência em uma época na qual autismo não era discutido fora dos casos com ausência de comunicação verbal. Mesmo assim, ela já percebia as diferenças, a rigidez de pensamento e as crises da filha. O vídeo demonstra como a intuição e o amor materno firme e objetivo permitiram que a Vovò oferecesse um ambiente seguro.
Dessa forma, ela ensinou a filha a enfrentar seus medos e a respeitar as próprias particularidades antes mesmo do diagnóstico de Síndrome de Asperger. Além disso, para Vovó Irene, a união constante, a aceitação das diferenças e a sabedoria de dar tempo ao tempo durante as crises foram fatores essenciais para o sucesso e o desenvolvimento saudável da filha.
2. Autismo – Relato de Mãe (21 de novembro de 2016)
Aqui trazemos a perspectiva da Michele Freitas. Esse vídeo é essencial porque aborda o momento que quase toda mãe atípica vive: o choque do diagnóstico, o choro nas madrugadas e a transformação desse sofrimento em ação e busca por tratamentos que funcionem.
Michele resgata desde os primeiros sinais de neurodivergência do filho, Miguel. Ela também relembra a dificuldade inicial com pediatras que minimizam suas preocupações até a confirmação do diagnóstico aos dois anos e sete meses. Além disso, Michele detalha como se apoderou do tratamento do filho. Dessa forma, descobriu o impacto transformador da terapia ocupacional e da fonoaudiologia no desenvolvimento dele.
Essa vivência a inspirou a criar a empresa “Benu”, com o objetivo de multiplicar informações e trazer metodologias inovadoras de desenvolvimento infantil para outras famílias. O episódio também aborda os percalços da inclusão escolar, a importância vital de uma rede de apoio familiar e a urgência de a mãe cuidar da própria saúde mental e do equilíbrio emocional para não sucumbir à sobrecarga constante.
3. Mãe autista, mãe atípica e maternidade atípica (21 de outubro de 2021)
Este é o coração da nossa história. Minha mãe relata o susto e o alívio de descobrir que também é autista. Mostramos aqui como as estratégias de convivência (como as nossas plaquinhas) salvam a nossa relação no dia a dia.
Mamãe relata como passou grande parte da vida acreditando ser uma mãe típica até receber o diagnóstico tardio de autismo. A descoberta, aliás, recebeu impulso pelas percepções da própria filha. Juntas, refletimos sobre as sobrecargas sensoriais e comunicacionais da maternidade real.
Além disso, a gente compartilha estratégias de convivência. Um exemplo disso é o uso de placas nas portas de casa para sinalizar limites em momentos de esgotamento. Em meio a relatos de estresse cotidiano e muita emoção, este episódio enfatiza o poder transformador do respeito mútuo e a importância crucial de uma mãe que sempre acreditou e validou o potencial de sua filha.
4. Cotidiano de Mãe e Filha Autistas (20 de abril de 2022)
Neste vídeo, eu e mamãe mergulhamos nas complexidades de uma relação onde ambas somos autistas e precisamos equilibrar o afeto com a busca por autonomia.
Com isso, refletimos sobre como as emoções no espectro costumam ser intensas, variando do “8 ao 80”, e como o amadurecimento exige que abandonemos os papéis do passado. Portanto, eu deixo de ser a criança dependente, e ela, a mãe que tenta resolver todos os problemas para evitar que a filha sofra.
Dessa forma, a gente discute a importância de regras claras e combinados para evitar o esgotamento mútuo. Assim, mostramos que o caminho para uma convivência saudável passa pelo respeito ao espaço individual e pela coragem de enfrentar os desafios da vida adulta. O que deve acontecer mesmo quando envolve frustrações e a necessidade de “se virar” sozinha.
5. Autismo – Como é ter uma mãe asperger? (24 de março de 2017)
Aqui, trazemos a visão da filha. Como é crescer com uma mãe que também processa o mundo de forma diferente? Então, falo sobre a autenticidade e a lógica da mamãe na minhavcriação. Dessa forma, eu busco desmistificar o papel da “mãe padrão”.
O diálogo perpassa as dificuldades com as funções executivas, os episódios de exaustão e crises. O vídeo também aborda a importância do perdão e do bom humor para quebrar a tensão nos momentos difíceis. Além disso, mostra que as mães neurodivergentes não precisam se cobrar para agir dentro do padrão de “mãe típica”.
Ao final, fica a mensagem de que não se deve tentar retirar todos os obstáculos da vida dos filhos, mas sim oferecer uma parceria genuína, E, com isso, garantir que eles se sintam profundamente amados e amparados em suas próprias trajetórias.
6. Maternidade Atípica – Programa Selma Sueli Silva #2 (26 de maio de 2020)
Um lembrete vital para este Dia das Mães é que a mãe não pode se anular. Portanto, mamãe fala sobre o abandono da vaidade, das amizades e da autoestima. Além disso, pondera como é preciso estar “inteira” para conseguir cuidar de outra pessoa.
Ela relata que, embora o laudo clínico muitas vezes seja libertador após anos de incertezas, ele frequentemente isola a mulher, Isso porque ela passa a dedicar todo o tempo aos estudos sobre o autismo e à rotina de terapias da criança. Como consequência, muitas mães atípicas vivenciam um profundo abandono de si mesmas. Dessa forma, negligenciam a própria vaidade, as amizades, o casamento e a autoestima.
Para reverter esse quadro de esgotamento, mamãe destaca a importância de afastar o sentimento de autopiedade. E considera que é preciso estabelecer uma rotina disciplinada que inclua momentos de autocuidado.
7. O desabafo de mãe e filha autistas (20 de novembro de 2021)
Nem tudo são flores e há muitas batalhas que devemos superar no caminho. Neste vídeo, denunciamos o preconceito e o despreparo médico. Este é, aliás, o lado da maternidade que exige que a mãe se torne uma “leoa” para garantir que a dignidade de seu filho seja respeitada pelos profissionais.
Mamãe detalha a jornada de 11 anos para obter o meu diagnóstico de autismo e as dificuldades adicionais ao buscar compreensão sobre incongruência de gênero. Com isso, denuncia o despreparo, o egocentrismo e a falta de escuta humanizada por parte de muitos médicos. O desabafo também foca na dor de não se sentir validada e no impacto traumático que diagnósticos equivocados ou posturas rígidas e preconceituosas podem causar na saúde mental dos pacientes e cuidadores.
Ao final, o episódio serve como um convite à reflexão para a classe médica. E enfatiza que o tratamento de condições como o autismo deve priorizar a dignidade do ser humano e a sensibilidade no acolhimento familiar. Portanto, precisa ir além de protocolos técnicos ou visões puramente mercadológicas.
8. TransParente | O Início | Ep1 (7 de setembro de 2022)
Entramos em um tema profundo: minha transição de gênero. Este vídeo mostra que o papel da mãe atípica é ser o primeiro porto seguro contra a violência do mundo. Dessa forma, mamãe demonstra como o amor e a busca por informação superam qualquer tabu sobre identidade.
Comemorando a minha até então recente cirurgia de redesignação sexual, nós discutimos como o procedimento vai além da estética, sendo uma questão crucial de saúde mental, alinhamento identitário e qualidade de vida. E mamãe relata seu papel como mãe ao longo dessa descoberta. Dessa forma, ela ressalta que, em vez de moldar os filhos às suas expectativas, a família deve buscar conhecimento para acolhê-los.
O episódio destaca ainda dados sobre a intersecção entre neurodivergência e diversidade de gênero. Isso porque pessoas autistas têm mais chances de vivenciar a incongruência de gênero. Assim, deixa a mensagem de que o apoio familiar é a primeira e mais importante barreira contra a marginalização e a violência impostas pela sociedade às pessoas trans.
9. É Sobre Ser Mãe Autista – Novo Livro Disponível! (13 de setembro de 2024)
Aqui, falamos sobre o lado “feio” da maternidade. Isso quer dizer que abordamos as crises severas, as agressões físicas e a culpa materna. Este vídeo, então, mostra que a honestidade sobre os momentos difíceis é o que realmente une as famílias.
A gente fala do livro “Tabus sobre a maternidade atípica e a identidade de gênero: nem tudo o que parece”. Esta é uma obra literária que mistura experiências reais e recursos de ficção para retratar os desafios da maternidade neurodivergente. Mamãe compartilha a hesitação inicial de escrever o livro pelo medo de expor a intimidade da família e ser julgada por revelar as dores e a exaustão que acompanham a criação atípica.
Juntas, a gente ressalta que a produção da obra não teve o intuito de chocar, mas sim de validar o sofrimento de famílias e pessoas no espectro, inclusive os casos de meltdowns mais severos. E, assim, mostrar que ninguém está sozinho.
10. O ADEUS DA MÃE É A CONFIANÇA NA FILHA (29 de maio de 2023)
Encerramos com uma nota de esperança e amadurecimento. Mamãe reflete sobre o ciclo da vida: ela cuidando de sua mãe idosa e, ao mesmo tempo, soltando a minha mão para que eu seja dona do meu destino. Este é, portanto, o fechamento perfeito sobre o que significa ser mãe: preparar o filho para o mundo.
No vídeo, mamãe descreve o contraste entre o orgulho sereno que sente pelas conquistas da própria mãe e a necessidade de estabelecer limites firmes comigo. Isso porque, por vezes, eu manifesto a dependência infantilizada ou a cobrança intensa em momentos de crise.
Dessa forma, o episódio destaca que o verdadeiro amor materno na vida adulta não consiste em resolver todos os problemas e carregar o sofrimento do filho, mas sim em fomentar a independência. Com isso, mostra que arcar com as consequências das próprias escolhas é o caminho fundamental para o amadurecimento e para se tornar dona do próprio destino.
Este foram 10 vídeos do canal Mundo Autista sobre maternidade atípica neste dia das mães.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

