Quando pensamos em filmes para o Dia dos Pais, é fácil cair naquela seleção de histórias edificantes sobre homens dispostos a qualquer sacrifício pelos filhos. Mas o cinema também nos lembra que a paternidade pode ser muito mais complicada.
Existem pais superprotetores, pais divorciados, homens que precisam criar os filhos enquanto vivem um luto, outros que simplesmente não estavam preparados para a responsabilidade. Há ainda aqueles que amam profundamente os filhos e, mesmo assim, erram — às vezes bastante.
Por isso, reuni dez filmes que já avaliei no meu Letterboxd e que apresentam diferentes formas de enxergar a relação entre pais e filhos. De Procurando Nemo a Nebraska, passando por comédias românticas como Operação Cupido e Sintonia de Amor, são histórias muito diferentes entre si, mas unidas por uma constatação: ninguém nasce sabendo ser pai.
1. Procurando Nemo (2003)
À primeira vista, pode parecer curioso começar uma lista de Dia dos Pais com dois peixes-palhaço. Porém, poucas produções da Pixar examinam a paternidade de maneira tão direta quanto Procurando Nemo.
Depois de perder quase toda a família em uma tragédia, Marlin concentra no único filho sobrevivente todo o seu amor — e também todo o seu medo. Assim, aquilo que começa como cuidado gradualmente se transforma em superproteção. Nemo deseja explorar o mundo; Marlin gostaria de impedir que qualquer perigo chegasse perto dele.
Quando o filho desaparece, o pai atravessa literalmente um oceano para recuperá-lo.
O belo é que a grande transformação não acontece apenas com Nemo. Marlin também precisa crescer. Para que o filho amadureça, ele terá de compreender que amar alguém não significa controlar todos os seus passos. Roger Ebert destacou justamente a maneira como o filme combina a inventividade e a comicidade típicas da Pixar com uma história emocionalmente envolvente.
No fundo, portanto, Procurando Nemo apresenta um dos dilemas mais difíceis da paternidade: como proteger um filho sem impedi-lo de viver?
2. Operação Cupido (1998)
Sim, Operação Cupido é uma deliciosa comédia familiar. Sim, Lindsay Lohan está irresistível em sua dupla interpretação como Hallie e Annie. Mas existe algo bastante melancólico escondido sob toda aquela leveza.
As gêmeas cresceram separadas porque, depois do divórcio, cada um dos pais ficou com uma das filhas. Uma viveu com Elizabeth em Londres; a outra, com Nick na Califórnia.
O plano das meninas para reunir os pais transforma a separação em fantasia de realização de desejo — algo que uma análise do The Guardian relacionou, inclusive, à maneira como crianças de famílias separadas podem projetar no filme o sonho de reconstrução da família original.
Nick é carinhoso, divertido e evidentemente ama Hallie. Porém, isso não apaga a estranheza da decisão tomada pelos adultos anos antes. E talvez seja justamente essa contradição que torne o filme mais interessante quando revisto depois de adulto.
Nancy Meyers envolve tudo em charme, humor e romance, enquanto Lindsay Lohan faz com que nunca tenhamos dúvida sobre qual das duas irmãs está diante de nós. Roger Ebert também destacou a eficiência de uma narrativa construída sobre arquétipos quase ancestrais — gêmeos, identidades trocadas e famílias reunidas.
É um filme sobre reconciliação, mas também sobre como as escolhas dos pais inevitavelmente atravessam a história dos filhos.
3. Os Garotos da Minha Vida (2001)
Aqui está provavelmente o pai mais complicado desta lista.
Em minha crítica de Os Garotos da Minha Vida, destaquei justamente o desafio oferecido pelo filme a Drew Barrymore, que entrega uma interpretação muito mais amarga e dramática do que aquela normalmente associada à atriz.
Beverly engravida aos 15 anos e se casa com Ray, vivido por Steve Zahn. O problema é que nenhum dos dois parece minimamente preparado para criar uma criança.
E o longa de Penny Marshall é interessante justamente porque evita oferecer uma versão açucarada dessa família.
Ray pode ser afetuoso, engraçado e até despertar simpatia. Porém, também é imaturo, dependente químico e incapaz de oferecer a estabilidade de que o filho precisa. Steve Zahn constrói esse personagem com uma humanidade impressionante: não o transforma em monstro, mas também não procura desculpá-lo.
A complexidade da interpretação chamou a atenção da crítica desde o lançamento. Roger Ebert elogiou a maneira como o filme abandona fórmulas fáceis para mostrar pessoas confusas vivendo vidas confusas, enquanto outros críticos destacaram justamente Zahn como um dos elementos mais tridimensionais da produção.
E existe algo bastante corajoso nisso: ter um filho não transforma magicamente alguém em adulto.
Às vezes, filhos acabam crescendo enquanto observam os próprios pais tentando fazer o mesmo.
4. Sintonia de Amor (1993)
Recentemente, defini Sintonia de Amor como uma obra-prima das comédias românticas dos anos 1990.
E há um detalhe curioso: embora Tom Hanks e Meg Ryan sejam eternamente associados ao filme, a história de amor sequer existiria sem Jonah.
Sam perdeu a esposa e tenta reconstruir a vida ao lado do filho. Jonah, porém, percebe algo que o pai ainda reluta em admitir: ele está profundamente solitário.
É o menino quem telefona para um programa de rádio procurando uma nova companheira para Sam. Assim, aquela que poderia ser apenas uma comédia romântica sobre destino também se transforma numa história muito afetuosa sobre um filho tentando cuidar emocionalmente do próprio pai.
Uma retrospectiva da Vanity Fair sobre os 30 anos do longa observou justamente como Jonah coloca toda a engrenagem romântica em funcionamento. Curiosamente, Tom Hanks chegou a discutir com Nora Ephron a construção dessa relação, defendendo que Sam e Jonah tivessem uma dinâmica efetivamente paternal, e não simplesmente uma inversão na qual o menino cuidasse permanentemente do adulto.
Por trás de toda a fantasia romântica, portanto, existe uma relação muito bonita entre duas pessoas tentando aprender a continuar vivendo depois de uma perda.
5. Três Vezes Amor (2008)
Uma menina pergunta ao pai como ele conheceu sua mãe.
A resposta poderia durar cinco minutos.
Will Hayes prefere transformar tudo em um enorme mistério romântico.
Em pleno processo de divórcio, ele conta à pequena Maya sobre três mulheres importantes de seu passado, muda os nomes delas e desafia a filha a descobrir qual terminou se tornando sua mãe.
A estrutura é engenhosa porque Talvez Sim, Talvez Não funciona simultaneamente como comédia romântica e história entre pai e filha. Críticos ressaltaram justamente que o filme revitaliza fórmulas conhecidas do gênero ao aceitar que relacionamentos são bem mais complicados do que a divisão simples entre “pessoa certa” e “pessoa errada”.
Mas há algo ainda mais bonito acontecendo.
Enquanto Maya tenta descobrir quem é sua mãe, passa também a conhecer quem seu pai era antes de ser seu pai.
Descobre suas ambições, frustrações, erros, paixões e sonhos.
É uma ideia simples e bastante profunda: chega um momento em que começamos a perceber que nossos pais tinham histórias inteiras antes de nós.
6. Os Descendentes (2011)
Matt King acredita ser um pai razoável.
O problema é que ele mal conhece as próprias filhas.
Quando sua esposa sofre um acidente e entra em coma, ele precisa subitamente assumir um papel muito mais ativo na vida das meninas — justamente enquanto descobre segredos devastadores sobre o casamento.
Alexander Payne poderia facilmente transformar Os Descendentes em melodrama. Em vez disso, prefere combinar tristeza, constrangimento e um humor muitas vezes desconfortável.
Roger Ebert observou como o filme trabalha simultaneamente luto, família e as obrigações que acompanham relações imperfeitas. Já a Vanity Fair destacou um Matt completamente perdido diante tanto da possível morte da mulher quanto das responsabilidades paternas que agora recaem integralmente sobre ele.
E talvez seja justamente esse o arco mais interessante do personagem.
Matt não precisa aprender a amar as filhas.
Precisa aprender a conhecê-las.
Às vezes, estar presente fisicamente durante toda a infância de alguém não significa necessariamente ter construído intimidade com essa pessoa.
7. Nebraska (2013)
Em Nebraska, a direção da relação se inverte.
Agora é o filho adulto quem acompanha o pai.
Woody Grant acredita ter ganhado um milhão de dólares e está determinado a viajar até Nebraska para buscar o prêmio. O filho David sabe que provavelmente se trata de uma fraude, mas decide acompanhá-lo mesmo assim.
A viagem acaba se transformando em algo muito maior.
David começa a descobrir fragmentos de uma vida que desconhecia: antigos relacionamentos, frustrações, humilhações, desejos e ressentimentos do pai.
Uma análise do The New Yorker definiu Nebraska justamente como uma road movie de pai e filho que encontra humor e emoção nas situações mais aparentemente banais, dentro da mistura de melancolia e compaixão característica do cinema de Alexander Payne.
É provavelmente um dos filmes mais maduros desta seleção porque fala de uma experiência que acontece muito depois da infância: o momento em que percebemos que nossos pais estão envelhecendo.
E começamos, talvez pela primeira vez, a observá-los não como figuras de autoridade, mas como seres humanos que também tiveram sonhos que deram certo — e muitos que não deram.
8. Os Incríveis (2004)
Bob Parr sente falta de ser o Senhor Incrível.
E esse detalhe é fundamental.
Ele ama Helen, Violeta, Flecha e Zezé. Mas também sente que a vida familiar e suburbana o afastou de uma versão extraordinária de si mesmo.
Por isso, Os Incríveis é muito mais inteligente do que uma simples aventura sobre uma família de super-heróis.
Roger Ebert percebeu essa combinação ao definir o filme como uma produção que alterna ação vertiginosa com uma sátira da vida familiar suburbana. Décadas depois, a Time ainda ressaltaria justamente a riqueza emocional da dinâmica familiar como uma das razões para o longa continuar funcionando tão bem.
Bob começa a história enxergando as responsabilidades familiares quase como aquilo que o impede de voltar a ser excepcional.
A grande descoberta é outra.
Sua família é sua maior aventura.
E existe uma bela discussão sobre paternidade aí: filhos não precisam necessariamente apagar a identidade que existia antes deles. O desafio talvez seja aprender a incorporar essa identidade a uma nova vida.
9. 17 Outra Vez (2009)
Quando pensa sobre o rumo que sua vida tomou, Mike O’Donnell encontra um culpado conveniente: as escolhas que fez ainda adolescente.
Se pudesse voltar aos 17 anos, imagina, tudo seria diferente.
Então o universo resolve atender ao pedido.
Mas 17 Outra Vez é mais interessante quando deixa de ser simplesmente uma fantasia sobre juventude perdida e aproxima Mike dos próprios filhos.
Ao voltar à escola com o corpo de Zac Efron, ele passa a conviver com Maggie e Alex praticamente como um colega. E descobre que conhecia muito menos sobre a vida dos dois do que imaginava.
Roger Ebert observou que a fantasia do filme parte justamente do desejo de Mike de retornar à adolescência e refazer decisões. Só que a ironia do roteiro está no fato de que a segunda chance não serve para ele recuperar aquilo que perdeu.
Serve para perceber aquilo que já tem.
É uma comédia adolescente surpreendentemente adequada ao Dia dos Pais porque fala sobre presença. Mike está dentro da mesma casa que os filhos, mas precisa se tornar outra pessoa para finalmente enxergá-los.
10. 2 Filhos de Francisco (2005)
Para encerrar, um filme brasileiro.
E talvez nenhum outro desta lista coloque o próprio pai de maneira tão explícita no centro da narrativa.
Francisco Camargo é um homem pobre que decide que seus filhos serão músicos. Não dispõe de dinheiro, contatos ou qualquer garantia de que o plano funcionará. Tem apenas uma convicção quase absurda.
A trajetória de Zezé Di Camargo e Luciano é conhecida, mas o longa de Breno Silveira encontra sua força justamente no percurso familiar anterior ao sucesso.
Em sua crítica, Pablo Villaça destacou como o roteiro consegue atravessar muitos anos sem adquirir uma estrutura meramente episódica e, principalmente, como resiste em vários momentos à tentação de transformar acontecimentos dolorosos em melodrama fácil.
Entretanto, assistir ao filme pensando especificamente na paternidade também permite uma leitura menos idealizada.
A obstinação de Francisco pode ser vista como incentivo extraordinário, mas também abre espaço para discutir até onde pais podem projetar seus próprios sonhos na vida dos filhos.
Talvez a diferença esteja justamente no resultado mais bonito da história: o sonho deixa progressivamente de pertencer apenas a Francisco e passa a ser também dos meninos.
Afinal, existe um jeito certo de ser pai?
Talvez a melhor coisa que esses dez filmes façam seja responder: não.
Marlin precisa controlar menos. Ray precisaria assumir mais responsabilidades. Nick precisa reconstruir uma família que foi dividida. Sam tenta seguir adiante depois de perder a esposa. Matt King descobre que morar com os filhos não significa necessariamente conhecê-los. Bob Parr precisa conciliar sua individualidade com a família. E David, em Nebraska, chega àquela fase da vida em que os papéis começam silenciosamente a se inverter.
Nenhum desses homens é perfeito.
Talvez seja justamente por isso que sejam interessantes.
Porque, longe da imagem publicitária do pai que sempre sabe o que dizer e fazer, o cinema mostra algo muito mais humano: homens que amam, erram, aprendem, se arrependem e, algumas vezes, recebem a oportunidade de tentar novamente.
Neste Dia dos Pais, talvez valha escolher um desses filmes para assistir em família.
E depois fazer aquilo que o cinema, quando é bom, sempre nos convida a fazer: conversar.
Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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